sábado, 26 de setembro de 2009

Mosto de Teu Rosto

No
Mosto

De
Teu
Rosto
Saboreiam doçuras de teu sabor,
Prazer doce sem Amor,

Renascer De teu Sol-Posto,
No horizonte de tua Dor!

Lagar onde teu Mosto fermenta,
Teu emerso corpo do generoso vinho,

É néctar frutado tratado com carinho,
Nas mãos que tua vontade experimenta,
Provando da tentadora tentação que tenta,
Embriagada vontade de petulante anjinho!

Edulcorados lagares de prazer,
Por fermentoso desejo de uva divina,
Brancura doce de poderosa sacarina,
Preparando seu corpo para cada sorver,
Sorvendo quem sorve um servido refazer,
Embriagando o tino de quem desatina,
Nas mágoas esmagadas deixadas escorrer,
Fracasso jurado de quem jurou proteger!

Sobre teu irresistível lagar,
Pairam agora colibris e abelhas de mel,

Escanções delicados dando a provar,
Milagrosa transformação de valioso fel,

Tinta amarga de assinado papel,
Implorante rosto de triste olhar,
Lágrimas prensadas sem vacilar!

No Horizonte de tua dor,
Renascendo de teu Sol-Posto,

Prazer doce sem Amor,
Saboreiam doçuras de teu sabor,

No
Mosto

De
Teu
Rosto!

domingo, 20 de setembro de 2009

Diferentes Vindimas Iguais

video

Trovões suaves se formavam na mente,
Pela estranheza de quem não os esperava,
Riam desconfiados de quem desconfiava,
Perdendo o olhar que bailava facilmente,
Olhar encontrado que pousava mansamente,
No sorriso da graça que o sorriso provocava!

Ilhas atrevidas de mentes solitárias,
Rodeadas por mil cuidados de garantida liberdade,,
Voaram sobre a vontade das atenções desnecessárias,
Tocando suavemente os vinhedos de lendas várias,
Gravados em cada videira o anonimato da identidade,
Em anónimas diferenças de igual particularidade,
Contrariando o juízo de iguais suposições contrárias,
Supondo agrestes encostas em Douro de tempestade,
Suposta surpresa confirmada na sensível possibilidade,
Da pobreza insensível de afectações sumárias!

Tesouras de luz cortando a iluminada diferença,
Na luz da luz que ilumina o resplandecente caminho,
Não deixando passar em claro solitário cacho de uvas sozinho,
Compreensão indiferente de quem aguarda a contínua sentença,
Na absolvição de um parto sem pecado absolvido à nascença,
Invisíveis parras cobrindo o perfeito rosto mesquinho!

Ilusores passos descontrolados em ameaça de queda eminente,
Ilocáveis Almas preenchendo lacunas entre bardos de videiras,
Entrelinhas misteriosas onde outras uvas curam cegueiras,
Silêncios surdos de gritos mudos no olhar de quem sente,
A condigna superior igualdade de igual mérito diferente,
Condutíveis pessoas em ordenadas fileiras,
Aguardando sua vez sem invejosas rasteiras,
Admirável humildade sorridente!

Doces uvas de doce vindima,
Colheita doce de doce estima,
Amigos diferentes em seu trajecto solitário,
São prova de igualdade e seu contrário,
Lição de vida que a videira da vida anima,
Cachos dourados pelo quente Sol que ilumina,
Bagos devotos nas contas de um rosário,
Corações rebeldes em vinhateiro sacrário,
Qualidade vindimável que pelo coração prima!

Triláteros de tempo cada um em seu compasso,
Três dias diferentes cada um com sua face,
Forças renovadas na gradação do cansaço,
Mais um dia do primeiro que renasce,
A mesma Luz do mesmo mágico passe,
Reintegração possível em tempo tão escasso!

Vindima da memória que não foi vindimada,
Ainda que colhida por pessoas tão Admiráveis,
Será sempre vindima de consciências amáveis,
Em cada cepa de videira gravada!


Sendo tão iguais na virtude quanto no defeito,
Fez-se uma vindima diferente cortando tudo a eito!

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Barquito Rabelo


Derivando na deriva da vaidade dos verdes bardos,
Flutuava um pequeno e mágico Barquito Rabelo,
Acariciando parras que protegiam o cacho perfeito,
Estimulando movimento na leve brisa de um apelo,
Retribuindo com brisa maior de um acordo satisfeito,
Impelindo assim o Barquito nos socalcos de um leito,
Emergido da montanha num monte que jurou protegê-lo,
Resistiu ás intempéries que fustigavam o desejo de vê-lo,
Transportar pequenos cascos de mágico vinho insuspeito!

Derivando na deriva de admiráveis castas orgulhosas,
Sobre nobres castas de qualidades frondosas,
Navega feliz o rebelde Rabelito de si seu dono,
Com a coragem de quem nada teme,
Não dormindo no desleixo de folgado sono,
Enche de vento a vela de suas descendências aventurosas,
Rabelo lírico decidido em ser seu próprio dono do leme,
Transporta paixão por suas uvas o barquito que freme,
Ancorando à tardinha na visão de curvas sinuosas,
Por onde deslizam gigantescas velas misteriosas,
Anunciando pagamento sedutor de amargo abono,
Ameaçando levar o fruto de paixões deliciosas,
Paixões de outras paixões deixadas ao abandono!

Derivando na deriva da paixão de Portuguesa Touriga,
Entre o corte à tesourada de suas paixões separadas,
E frios lagares onde suas protegidas serão esmagadas,
Encalha o Barquito Rabelo apartado que a tristeza abriga,
Sem saber que é fado mágico de paixão antiga,
Arrebatamento de paixões por paixões apaixonadas,
Paixão de Deuses para irresistíveis paixões fadadas,
A mesma paixão pelo pequeno Rabelo incompreendida!

Caiu-se de si o Barquito Rabelo sobre pedras de xisto,
Deixou-se derivar na deriva das espadelas sem vontade,
Murchou sua vela num enrodilhado imprevisto,
Abandonando-se num olhar profundo nunca visto,
Deixou que a prata do Douro reflectisse a profundidade,
De um fim de tarde em resignada passividade,
Descurado chão inseguro de elevado risco,
Seca corrente forte no Douro da maturidade!

Acordou com a luz de prata em seu peito de fundo chato,
Sensação de estranha sede da sede que nunca tivera,
Mas que saboreou num admirável sorver imediato,
Confundindo lágrimas escorridas em pequeno regato,
Com acolhedoras boas-vindas que o Douro lhe dera,
Rio de seu leito pelo Rabelito rebelde à espera,
Praxe generosa no generoso vinho de mais uma Era!

Derivando agora na deriva do Rio que entre colinas ri,
Navega nervoso o pequeno Rabelo atarantado,
Descobrindo a corrente na qual navega enviesado,
Esquecendo-se da espadela em remo do leme de si,
Mas sua quadrada vela se arredonda e sorri,
Bem segura pelo mastro em suor da vinha trabalhado!

Lá se ajeitou o barquito,
Seguindo a corrente dos grandes Barcos imponentes,
Transporta agora a melhor uva, um único baguito,
Acenam-lhe alegrias lá nos montes as videiras contentes,
Recordando aquele Rabelo pequenito,
Que flutuava num imaginário infinito,
Imaginação sem fim de grainhas-sementes,
Gerando histórias que germinam no calo dos crentes!

O Barquito Rabelo derivando agora no mosto da deriva,
Navega nos lagares de onde saem grandes prazeres da vida!