quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

KrystalDiVerso.Fim



Erguidos os labirintos que me fitam,
Flutuam sobre plataforma flutuantes,
Há palavras em reflexos que me imitam,
Pesados versos que sobre mim levitam,
Fazendo-me leve em curvas insinuantes,
Insinuando-se nas finas linhas sibilantes,
Que, passando, nos meus Poemas ficam!

É tempo de voltar à iniciação final da Poesia,
Reviver o ritual do princípio nunca abdicado,
Velha estreia de um outro princípio acabado,
Que começa onde o anunciado fim se inicia,
Acabando por ser imagem de minha ironia,
Escondidos olhos de um espelho debutado,
Quebrado por um sofrido brilho sem agonia,
Gasto pelo tempo há muito tempo iniciado!

Olhando esta vassoura de Krystal, na mão,
Leve de peso que eu carrego com algum Amor,
Pesado na leveza deste meu estranho coração,
Onde não bate aquele impulso de estranha dor,
Afeiçoada às grades de doce cárcere libertador,
Que todos liberta do deslumbre forte da ilusão,
Desvanecida na serenidade ilusória do alvor!

Brincando com letras mágicas,
Ofereci o riso aos dramas profundos,
Lágrimas prenhes aos estéreis fecundos,
Ainda dei palavras às felicidades trágicas,
E cem anos de vida a abortos moribundos!

Os filamentos triunfantes de poética piaçaba,
Prolongaram Poemas longos que se foram repetindo,
Varrendo escória que o avesso dos tapetes foi atraindo,
Deformando Protuberâncias de quem, sem o saber, se gaba,
De ser o portador legítimo de uma vassoura que aldraba,
Escondendo almas nuas que de lixo se foram vestindo!

É-me agora oferecido todo este labirinto de Krystal,
Sem muros até ao inferno nem estreitos becos sem saída,
Em cada esquina de mistério desenha-se uma sátira perdida,
Que encontra na próxima entrada um céu de ironia natural,
Onde repousarei de todo este descanso pouco consensual,
Entre os pobres poetas e os génios de loucura varrida!

Desliza o derradeiro Poema no alheio rodapé que se acalma,
Enquanto recolho a vassoura que varre o KrystalDiVerso,
Substituído por pequenos Poemas de um krystald’Alma!




domingo, 26 de dezembro de 2010

Anúncio de KrystalDiVerso




Como tudo tem um FIM, com ou sem princípios, KrystalDiVerso, finda-se... naturalmente!
A todos que passaram por este meu “ARQUIVO”, agradeço o "sacrifício"; para os que tiveram a paciência de LER os Poemas e outras tantas histórias, louvo-lhes o esforço!

Propus-me, desde o primeiro dia, a escrever cem (100) Poemas; dois anos depois, essa META está a um Poema de ser atingida!... Assim, antes do último dia do ano de 2010, será publicado o último Poema de KrystalDiVerso!

Sem saudade... confesso!

Obrigado!



A. Pina

Escolham entre... beijos e abraços




quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Pequenos Seres de Luz




Uma formiga fraquinha,
Encontrou uma esmorecida Luz doente,
Perguntou-lhe meiguinha,
Se aquela luzinha,
Já havia tido um brilho diferente,
A Luz piscou um sinal contente,
Entristecendo-se no olhar da formiguinha,
Mas uma centelha de Esperança fulgente,
Iluminou a ténue Luz mansinha,
Que viu um brilho de rainha,
Na polarização luzente,
De uma Alma latente,
Naquela frágil alminha!

Uma formiga Tão longe do Verão,
Tão próxima de um sagrado destino,
Sobreviveu na força de seu coração,
Que a protegia da má direcção,
Atalhos de engano ferino,
Caminhos em negação do Divino,
Cortados de Divina ligação,
Ao Amor cristalino,
Iluminado pelo Amor da criação!

Uma Luz tão distante do Dia,
Tão apagada das noites cintilantes,
Dormia entre sombras brilhantes,
Semblantes de uma Divina profecia,
Presságio de tão serena energia,
Que haveria de fazer exultantes,
Intangíveis almas jubilantes,
Habituados à humana carestia,
De mundanos valores exorbitantes!

Olhando na noite um vaga-lume amigo,
Que brilhava num coração de gelo transparente,
Iluminou-se seu meigo olhar que trazia consigo,
Ao lembrar-se dos congelados campos de trigo,
E dos pirilampos de conservada luz intermitente,
Engraçada Luz riscada na noite de um Céu antigo,
Que abria os sorrisos ameninados de muita gente!

E a Luz triste vendo-se pelas trevas envolvida,
Libertava uma lágrima sem brilho pelo frio vencida,
Perdendo o calor, sentia seu Destino congelar,
Não sabendo que seu Fado,
Ainda que parecendo apagado,
Era uma dádiva por Alguém prometida,
Esperança de Vida com liberdade para sonhar,
Que o sublime Sonho da vida ajuda a imaginar,
Promessas realizadas da Esperança renascida!

Um tremeluzido solidário de humildade,
Por tão humilde força de sinceridade,
Da fraqueza de todos os Seres invisíveis,
Encheu-se de Luz desprovida de vaidade,
E contra todos os presságios terríveis,
Com a Luz de todas as Almas sensíveis,
Encheu todos os olhares com Bondade,
Tornando todos os sonhos possíveis!

A valente humildade da pequena formiga,
Maior do que o egoísmo da humanidade,
Apelou às feromonas de sua identidade,
Suplicando toda a ajuda das obreiras da vida,
Ordenou a sábia rainha prenha de solidariedade,
Que a seara fosse por todas as formigas aquecida,
Descongelando todos os vaga-lumes de Luz perdida,
Para que fosse apontada a Esperança da Verdade!

Mil milhões de débeis brilhos,
Unidos num universal esplendor,
Formaram uma Estrela de Amor,
Divinal Mãe de todos os filhos!

Há lágrimas que escorrerão nos cravos da Cruz,
Há Pais, Mães e filhos que procuram alguém,
Há pirilampos, pequenas formigas e Muita Luz!




segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Pícaros Angustiados


Pícaros angustiados,
Abraçam braços cruzados,
Assinatura de abraços fechados,
Firmadas com fios de frágeis enleias,
Esperam carícias por enlevadas ideias,
Crescidas em cérebros financiados por teias,
Grossas de sangue entre açúcar de veios arrastados,
Derrames de doce veneno que lhes corre no gelo das veias;
Escorrendo na consciência retórica de eufemismos extasiados,
Vendem-se orgasmos dos insaciáveis objectivos alcançados,
Em vez do preservativo consciencioso das assembleias,
Barrigas de aluguer prenhes de imunidade às cadeias,
Bastando que por todos os meios sejam abusados,
Humanidade perfeita pelas razões mais feias,
E os dignos direitos dos eternos violados!

Vozes trémulas oferecem geleia de confiança,
Tingem ávidas papilas com gostos distintos pelos corantes,
Maçãs azuis e morangos violeta matam a fome de uma criança,
A ilusão da consistência tem uma trémula e doce semelhança,
Com a amargura de uma digestão difícil rica em diamantes,
Enfeitados com esperanças de ouro e salvas radiantes,
Salvação das ilusões nas cores negras da Esperança!

Na vanguarda da frenética tecnologia,
Luz é um jogo de trevas num tabuleiro do tempo,
Jogado pelo pó secreto de uma esotérica maçonaria,
Que apostando nas mecenas vitórias do etéreo momento,
Faz valer sua silenciosa vontade do receptivo argumento,
Comprado pela influência escondida de corrupta teoria,
Demonstrada na prática com novos jogos de ironia,
Dividendos angustiados disfarçados no orçamento!

Há privilégios interditos que nos respiram,
Medos em nós que asfixiam o ensaio do abraço,
Há uma côdea de pão bolorento num olhar de cansaço,
Tristezas escondidas na vergonha dos Amores que fugiram,
Há fingimentos primitivos em corações que desistiram,
Próceres moldam cérceas no corredio nó do baraço!

Há um pai de ninguém na angústia dos lazarados,
Senhor absoluto que nada dá do que dele merece dar,
Apostando o futuro perdido de quem não pode jogar,
Dando angústias aos Pais que deviam ser venerados,
As mesmas angústias marcadas nas faces dos dados,
Viciados por pícaros de Sorte, mensageiros do azar!

Há angústias irradiando felicidade,
Tão perto de angústias sem identidade!

domingo, 5 de dezembro de 2010

A Colher dos Finalistas



*
Há uma história sobre penosas,
Gordas como só a pedrês do vizinho,
Esgravatavam umas receitas preciosas,
Nas estudantis cogitações pecaminosas,
Regadas com a inspiração de imenso vinho,
Néctar que nunca um Estudante deixa sozinho,
Esse professor de posteriores lições miraculosas!

Sabe-se de um tardio jantar prometido,
Pela tradição que a quase todos dava jeito,
Se alguns estudavam para um futuro perfeito,
Outros já eram doutores de galinheiro prevenido;
Despreocupada cacarejava a galinha sem preconceito,
Se uns preferiam a tentação da coxa ou cobiçado peito,
Asas fortes em pratos de moçoilas, era desejo resolvido!

Nas entrelinhas dos livros da vida,
Entre a cultura dos sábios consagrados,
Histórias sobre estudantes mais empenhados,
Ensinam aos mestres de juventude perdida,
O segredo mal guardado na exacta medida,
Do mesmo empenho e iguais predicados!

Namoravam-se as pitas depois de muito estudo,
Água na boca matava a sede ao ver as mais gordinhas,
Combinava-se o encontro entre a raposa e as galinhas,
Todo pedrado de crista murcha lá dormia um galo mudo,
Mas para convencer as penosas já era um caso bicudo,
Prometia-se a panela onde ficariam bem quentinhas!

Era a feijoada prato no fim do dia com enorme potência,
Onde os galináceos voluntariosos aprenderiam a mergulhar,
E nem um “perdido” porco encontrado por aí a deambular,
Deixou de dar o corpo pela comparticipação da exigência,
Na falta do fogueteiro, continua a festa com flatulência,
São os donos convidados de quem os andou a roubar!

Mas é preciso uma forte colher,
Colher leve, imensa como a sabedoria,
Deve ter carácter e o querer da idolatria,
Ser forte na certeza do rumo que se quer,
Saber misturar os condimentos de mulher,
Com o jovem tempero de varonil filosofia!

Há histórias de Colheres vestidas de Fitas,
Entrelaçando o futuro das cores numa difícil travessia,
Que começa numa despedida de Finalistas!

*



segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Ateu Confesso



Pobre inconsolável sem Deus,
Sisma no brilho do seu buraquinho,
Escondido entre a graxa dos Ateus,
Pobre do pobre, pobre, pobrezinho,
Coitado do triste pobre rapazinho!

Um pobre rapazinho sem asas para voar,
Partilha subterrâneos onde é proibido sonhar,
Escava pesadelos na pobreza que tudo lhe deu,
Esquece-se culpando Deus por todo o seu azar,
Apagado pela luz que ele nunca compreendeu,
Destila ódios íntimos do vapor que o enraiveceu,
Culpa Deus por seus pecados e confessa-se Ateu!

É escárnio escondendo-se num medo de cagão,
Ri-se todo tolo pensando-se um mestre em graça,
Desprezam-no os palhaços ignorando-o com chalaça,
Morre de fome à mesa dos senhores de nobre condição,
Não se assumindo, continua rindo do seu ódio de desgraça,
Pobre pobrezinho sem Deus cheio de inveja em seu coração,
Sem saber que é demasiado parvo para ser Ateu em confissão,
Pobre ressabiado que de olhos nos olhos tem uma mordaça!

Porque este Ateu não ergue as mãos em Dezembro,
Acreditando apenas em tesouros dos ricos Reis Magos,
Ofereço-lhe toda a pobreza deste Poema de Novembro,
Buracos sem agulhas para camelos de pensamentos vagos,
Que tentarão passar por estreitos infernos de Céus aziagos,
Olhando com inveja a esperança feliz da qual não é membro!


Coitado do triste pobre rapazinho,
Pobre do pobre, pobre, pobrezinho,
Escondido entre a graxa dos Ateus,
Sisma no brilho do seu buraquinho,
Oh, pobre inconsolável sem Deus!


Com a Luz da alma vazia que ele nunca entendeu,
Anda por aí escavando miolas em bolsos de pão,
Nas avessas searas perdidas do pobre Ateu!


domingo, 31 de outubro de 2010

Quantos Dias dos Santos


 
Quanta unha partida,
Quanta esgadanhada cova aberta,
Quanta enterrada vida!...

Quantas Vidas despojadas,
Quanta tristeza enterrada viva,
Quantas mortes desterradas!...

Quantas almas no desterro,
Quantas frias entradas sem saída,
Quantas saídas em erro!...
+
Quanto frio errante!...
Quanta terra cortada à medida,
Quantas lágrimas à despedida,
Quanto silêncio dissonante,
Quanto pranto à partida,
Quanto ai de tristeza redundante,
Quanto brilho finado da vida cintilante,
Quanta lama inglória sob guerra perdida,
Quantas trincheiras num coração palpitante,
Quantas mãos segurando as cordas da descida!...
+
Quanta saudade por suprir,
Quanta imortalidade prometida,
Quanta promessa por cumprir!...
+
De joelhos enterrados,
Como raízes numa campa rasa,
Rezas os medos de fins antecipados,
Dos santos mistérios de dias assinalados,
Na pena lacrimada que das lágrimas extravasa,
Espalhando caídas penas de uma ferida asa,
Roubada ao voo triste de tristes fados!...
+
Quantos esboços traçados,
Quanta obra interrompida,
Quantos planos rasgados!...


Quantos sepulcros escavados,
Quanta vida longa resumida,
Quantos ânimos desanimados!...
+
Quanta funesta indiferença,
Quantos de teus ódios sulcados,
Quanta igualdade morta à nascença,
Quanta contrição definhando na doença,
Quantos de tantos remorsos desacreditados,
Quanta vergonha no epitáfio dos dias profanados,
Quantos milagres de Santos da casa caídos em descrença,
Quantas valas comuns no coração de pecadores perdoados!
+
Quanta, quanta…
Sauddade!

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Valquíria Submersa (reposição)





Cercada por lágrimas em revolta,
Sou doce ilha em aberto mar salgado,
Navego à deriva por valquírias envolta,
Perseguindo o sonho do guerreiro sonhado,
Que rejeito sem medo, por medo infundado,
Onde afogo meu submerso amor emergido,
De um abismo de sal pelo Amar perdoado,
Encontrando-me num sonho perdido!

Valquíria de Odin quisera eu ser,
Escrava dos deuses e tua deusa alada,
Quisera eu lamber corpos de espuma suada,
Saboreando sal grosso da salgada espuma penetrante,
Voei entre mergulhos conquistados em tronos de poder;
Abracei a força Neptuno e fiz-me sua doce sereia encantada,
Cantei azuis marinhos e dancei com sensuais algas de prazer,
Montei Cavalos-marinhos e unicórnios de mágico semblante,
Ao dispor do Sol de minha vaidosa adolescência delirante,
Delírios felizes que a memória se vai esquecendo de viver,
Despindo o manto de mar revelo-te meu corpo escondido,
Ausente de si, ausente de mim e pela ausência possuído,
Vai desistindo da vida, vai morrendo o amanhecer!

Sou uma ilha salgada,
Retalhada por mil pensamentos,
Sou arquipélago de todos os momentos,
Por tempestades de lágrimas açoitadas,
Impelindo as minhas dúvidas sagradas,
Atraindo-se num só, mil fragmentos!

Sou Mulher que voa, nada e rasteja,
Sou Valquíria e sereia que ama e não deseja!

domingo, 17 de outubro de 2010

Caír da Folha



Aquele magro rosto cansado,
De uma pálida serenidade natural,
Adormeceu na tristeza de um leito fatal,
Entristecido pela beleza de um Outono sulcado,
Na despedida serena de um derradeiro adeus finado,
Pintado nas cores caídas daquele sorriso final!


Uma imagem caída de Outono,
Despida de qualquer desejo sem dono,
Abandonada ao vento frio que parado a acaricia,
É inerte imagem adormecida de uma memória sem sono,
Finalmente despojada da insónia que sobre cetim adormecia,
Eterno repouso branco da infalível e sempre eterna profecia,
Sepultada na crença ressuscitada de predições ao abandono,
Das cores verdes da Primavera emprestadas num assomo,
De esperança, na esperança de ter vivido mais um dia!

Uma lágrima de cera liquefeita,
Jaz na queda de uma folha desenhada,
Nas últimas linhas de uma página desfeita,
Tangida pelos sinos em despedida imperfeita,
Emprestando ao lúgubre fim daquela folha rasgada,
Um pedaço de terra indiferente caída da lágrima cavada,
Que a cera de hora sem tempo, ao fim do tempo foi sujeita;
Voam pássaros negros numa interrompida lágrima congelada,
Pairando no vazio do nada que no nada dos olhos se deita!

Envolta em silêncio jacente,
Cobria-a um murmúrio cinzento,
Abafado por um letárgico desalento,
De consentido e meigo sopro clemente,
Último Influxo de cera esvaído num momento,
Derretendo na tristeza de um regresso comovente,
Acariciado pela suave brisa que a pousou levemente,
Sobre uma folha de Outono levada pelo vento!

Fecha-se a saída à folha onde corpo jaz,
Entrada fechada às lágrimas em seu redor,
Deixando que pranteadas chaves de Amor,
Reclamem lembranças de um sorriso fugaz,
Entre as portas abertas em alvores de paz,
Felizes recordações libertadas daquela dor!

Uma folha de Outono Levada pelo vento,
Afagando levemente as faces primaveris do rubor,
Oferece uma nova Alma que voa nas asas do alento!

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Rebusco do Respigo




No final das vindimas,
Já não corre à solta o riso patusco,
Nem se recorta o gesto das pantominas,
Na sombra da luz de velhas lamparinas,
Que iluminavam as histórias de rebusco,
Combinadas com as tesouras traquinas,
Desafiadas pelo cacho mais robusto!

Um ancião com histórias infinitas no olhar,
Falava aos gaiatos que o ficavam a contemplar,
Atentos às sábias palavras que sempre trazia consigo,
-Filhos, não esqueçam o que agora vos digo;
Nem respiravam, os petizes, para o ouvir falar:
-É importante haver alguém em quem se possa confiar,
Para que não seja preciso fazer o respigo,
No fim da vindima que os vossos filhos vêm rebuscar!

Há três bagos escondidos atrás da Folha de Videira,
Aguardando o filho de quem os ajudou a esconder,
Há vinhas ocultas cultivadas por ignorante cegueira,
Abandonadas na sombra vindimada da culpa solteira,
Amante de misteriosas sombras que ficaram a dever,
A Luz solar nas encostas de costas deitadas à asneira,
Deixando que videiras sem memória ficassem a arder,
Entre obscuros bardos de cachos parados de crescer,
Quando as cepas vivas foram queimadas na fogueira,
Com os cheques inflamáveis que ninguém quis deter!

Há um provecto a deixar escorrer um sorriso,
Quando afaga a escola retomada da necessidade,
Há ainda outro velho sábio com um sentido preciso,
Protegendo três bagos no olhar de um gaiato indeciso,
Entre o respigo perdido e o renascido rebusco na vontade!

Um moço vivaço com a luz de um candeeiro reflectido no olhar,
Conta histórias sobre três bagos maduros de vaidade,
Que muitas famílias ajudaram a sustentar!

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

A Revolta das Migalhas



Vamos juntar nossas migalhas,
Que os senhores de nosso Destino pisaram,
Vamos abraçar a dança da chuva que eles nunca dançaram,
Voltar a amassar o pão para cozer nas quentes fornalhas,
Com o frio da fome que gelou as perdidas batalhas,
E dar-lhes a provar o Destino que nos traçaram,
Roubando dignidades, até, esses canalhas!

Vamos ensinar a essa canalhada,
Com quantas letras se escreve a fome,
Vamos mostrar-lhes como é que se come,
A miola que pelo desprezo deles foi esmagada,
Matando a fome à fome com mais fome alimentada,
Gritemos o significado da palavra que no dicionário se some,
Empanturrando-os com o significado do seu verdadeiro nome!

Vamos mostrar a verdade a esses gordos gatunos descarados,
Todas as variações das cores pálidas da verdadeira pobreza,
Vamos misturar essas cores com a cor rosada da riqueza,
E descobrir as novas cores que nos murais ilustrados,
Fixarão corajosos quadros pela igualdade pintados,
Com suaves processos limpos por honesta firmeza,
Que nas lições da fome foram ensinados!

Pais desesperados, ao diabo gratos,
Rezam pelo fim dos gatos decepados,
E das lebres pardas que miam nos pratos;
...

Uma pobre sagrada família de créditos firmados,
Foi publicamente acusada pelo seu gato, de maus tratos,
Entretanto, as lebres passeiam lá longe, dos olhos esfomeados!

...

Vamos juntar nossas Migalhas,
E matar a Fome a esses canalhas

*

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

República



Adeus Pátrias excomungadas,
Adeus miseráveis Repúblicas sem Pão,
Adeus Povo despojado de opinião,
Adeus carrascos das igualdades espoliadas!

Um dia sereis esmagados,
Por Repúblicas e Reinados,
E as ditaduras e ditadores,
Lograrão ser recordados,
Como grandes vencedores,
Que derrotaram os traidores,
De seus povos desprezados!

Bem-vindos sejam os Patriotas,
À fogueira que o Povo há-de acender,
Bem-vindos, ó tumores agiotas,
Ao princípio de vossas derrotas,
Ao cirurgião plebeu que vos há-de remover,
E a toda a moléstia que não parou de crescer,
Na Alma do povo que vocês fizeram de idiotas,
Com os dados viciados de vossas batotas,
Os mesmos que no xadrez vos hão-de acolher!

O inferno espera pelo republicano,
Onde já arde o folclore do rei,
Arde o povinho que já não se revê no plano,
Que incendiou as Searas à margem da lei!;
Um dia sereis esmagados,
Por novas Repúblicas e Reinados,
Pelos que, por vós, foram ludibriados,
Traficantes de revoltas dadas à grei,
Oferta aos que voltao a ser enganados! 

Os cordeiros serão sempre devorados,
Pelos lobos da República e dos reinados!

domingo, 3 de outubro de 2010

Ironia do Zé Ninguém



Como sofria aquele Zé Ninguém!...
De olhar caído nos subúrbios de Deus,
Pendia dos cílios de uma solitária mãe,
Que adormecera nos sonhos de ser alguém,
Visão comprimida no amplexo dos olhos seus!

Deixando-se afogar em remoinhos salgados,
Sentia o oxigénio fugir na frialdade dos castigos,
Que emergiam na superfície dos oculares abrigos,
Escondidos na dor da retina de olhares segregados,
Quase cegos pela sobrevivência de amores antigos,
Afogados na separação das lágrimas de olhos amigos,
Pelo transbordo incerto dos opostos ângulos cruzados!...
Como sofria aquele Zé Ninguém!...
Entre sulcos das rugas inertes dos rostos abandonados,
E os raros cabelos grisalhos, penitentes de cabelos caídos!

Possuído por espíritos em agonia,
Despidos da luz de muita alma dilacerada
Rasga-se a lâmina atrás da pálpebra suturada,
Por vacilantes tentativas de suicida travessia,
Dos caminhos sem saída empedrados de nostalgia,
Esses atalhos resignados de tristeza consumada!...
Como sofria aquele Zé Ninguém!...
Pelos extenuados olhos tristes cheios de nada,
Espelhos embaciados por esquálida melancolia!

Corpos moribundos arrastavam-se no negrume da tristeza,
Esgadanhavam ténues memórias de punitivas loucuras carnais,
Onde carpiam desabafos abafados às lágrimas de sua fraqueza,
E ali definhavam as almas abandonadas à verdade da crueza,
De corpos irreconhecíveis na humanidade de trapos imorais!
Como sofria aquele Zé Ninguém!...
Ao ver aqueles pecados vivos transformarem-se em mortais,
Enterrando a felicidade viva na sombra morta da beleza!

Ninguém, Amava o Amor que o Amava,
Fazia Amor com o Amor que Amor com ele fazia,
Lambiam mel sem fim que de seus corpos escorria,
Entre orgasmos intensos do prazer que os abraçava,
E os pecados simultâneos que a felicidade defendia,
Perdoados por Deus que suas almas não julgava,
Pelo prazer do Amor recíproco que Ele protegia!

Afirmam ser um mortal pecado de alguém,
Mais de mil anos de prazer e Amor imenso,
Do Amor fiel e o libertador orgasmo intenso,
Almas abandonadas que olham com desdém,
A respeito do Amor e aplicado bom senso!...

                                                E como sofria                 aquele Zé Ninguém!
                                                                            por eles

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Pérolas Lustrosas



Emprestava à educada adulação que dava,
Toda a beleza celestial que dos anjos adultos não tinha,
Redigia aromas de alfazema por cada palavra que perfumava,
Oferecendo vigor ao deleite das flores em Primavera de rainha,
Que levitava em volta do nascer dos sóis que seu reino mantinha,
E deixava despedidas ternas ao fiel súbdito que por ela se cultivava,
Rodeando-se do servil infinito que às doces palavras, lisonjas dedicava,
Por cada sol posto que deixava em misterioso perfume de uma adivinha,
Guardada na cor de frasquinhos invisíveis das essências que não adivinhava,
Fechando todas as palavras num livro onde sua palavra não estava sozinha!

Oferecia às palavras uma outra versão da verdade que lhe ia na Alma,
Escrevendo lisonjas amorosas no branco dos olhos escancarados ao Sol,
E aquecia o engodo iluminado da estima no sedutor espigão do anzol,
Com que pescava os amores que nadavam nas repescagens da calma,
Para ambos flutuarem sobre a inércia da corrente morta em seu prol!

Enfiadas na dupla transparência das linhas escondidas,
As mais lindas pérolas que no cerne das palavras se formaram,
Mostravam todo o amor dedicado ao infinito das conchas perdidas,
Que se abriam de amores às contas de vidro e outras pérolas prometidas,
Prometidas pelo carinho lustrado do colar que ao carinho recebido colaram,
Semeando graças brilhantes na sombra grata do desassossego que as alteraram,
Com o sossego das promessas antigas ensombradas por pérolas esquecidas,
Apagadas da memória, na folha que em suas páginas separadas voaram,
Poisando entre as costas voltadas do segredo ao abrigo das intrigas,
Onde dormiam sossegadas no espelho das entre costas amigas,
Reflectindo adulações educadas das palavras que amaram!

Às vezes pressente-se uma agitação consentida, próxima do naufrágio,
E os porcos inocentes que se debatem entre a culpa das conchas antigas,
Emergem, lustrosos, num quadro de lustrosas pérolas coladas ao adágio!

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Serra dos Abrolhos Brancos



De nariz no vidro, do nada apareceu espavorida,
Todinha vestida de indutoras frescuras brancas,
Adivinhava-lhe rendas íntimas e uma sedosa liga,
Entre a meia-idade das ainda capazes coxas, perdida,
E outra, de um branco-sujo, exalando ácido de potrancas,
Compradas, avulso, na lembrança sedutora daquelas ancas!

Notava na brancura, carnes amolecidas,
E sais de banho das fragrância silvestres,
A espuma curiosa das certezas perdidas,
Escoadas no ralo das traições cometidas,
Pelos descansados enganos dos trimestres,
Alcovitados na nobreza de passeios terrestres,
Esses ínvios caminhos das mansões prometidas!

Foram sempre os ventos da serra,
Que erigiram metrópoles serranas,
Por caridade de remeladas pestanas,
Esses cadeados de olhos sem paixão,
Caídos nas raízes dos abrolhos da terra,
Que cegos para o amor e para a guerra,
Cavavam a paz entre as pedras soberanas,
E a encrespada pele de sapo do vento suão;
E foi esse fustigar, atestado de recomendação,
Que os ensinou a lavrar o papel que ainda os ferra,
Com toda a raiva do plexo de originárias membranas,
Enterradas no anonimato migratório da tentada elevação!

Afinal, as serras também são cosmopolitas,
E os carros brancos não escrevem sobre granitos,
Migram entre cores indecifráveis de círculos eruditos,
Permanecendo na raiz antiga dos abrolhos eremitas,
Que os prende às terapias das estimadas escritas,
Remédio de amor de aprisionados sítios benditos!

A metrópole das serranias,
Cava calos no corpo humano,
Desenterra rústicas fantasias,
E cultiva familiares simpatias,
No recato do povo serrano!

A moçoila de branco escorreito,
De nariz bem colado aos vidros opacos,
Procura pedras de ouro no sonho desfeito,
E amor nos espelhos de seus reflexos fracos!

*

E a Moçoila em seu carrinho branco,
Atrás dos vidros…

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Abandonada às Palavras



Sentir tua sombra instintiva,
Que minha luz apagada empalidece,
Impele-me à masturbação que acontece,
Numa cruel raiva infectada de leitura passiva,
Só tolerada por minha rejeitada maluqueira viva,
Que do teu indiferente Amor meu desejo padece!

Sobrevoo velhos declives das antigas histórias malditas,
Busco esquecidas palavras abandonadas que me enganam,
Na força estranha de entrelaçadas odisseias mal escritas,
Em cordas distorcidas de nossas mentiras restritas,
Cópias das cordas que as verdades esganam,
Escrevendo rabiscos dos quais se ufanam,
As cópias sábias de ignoradas eruditas!

Meu prazer insatisfeito é incomensurável,
Sempre contínuo e para todo o sempre incompleto,
Meu desespero partilhado é um forte desejo circunspecto,
Perdido entre a memória em carne viva do teu sexo mutável,
E a morte do Amor por mim que em mim é dor insuportável,
Sepultada no orgasmo incompleto de um divórcio discreto!

Moldo naus apodrecidas com páginas amantes,
Para navegar oceanos de palavras que me afogam,
E me salvam de orgulhosas vergonhas degradantes,
Em cada capítulo inacabado de solidões frustrantes,
Que sobre inconfessáveis trocas de solidão dialogam,
Ensaiando prévios monólogos que as palavras rogam,
Aos pés de vivas mágoas de abandonos estonteantes!

Sou agora uma cópia de palavras prostituídas,
Insinuantes nas esquinas de livros que ninguém lê,
Sou a palavras infectada de minhas estimadas feridas,
Alveolar morfina contrafeita de Afegãs papoilas destruídas,
Só não sei se sou o que não confesso ser da mulher que não se vê,
Por incrustada palavra que na cavidade de minha solidão fica à mercê,
Fechando-me no medo do abandono de paralelas palavras amigas!

Voam alvéolas amarelas dos parágrafos descontinuados,
Esvoaçam intermitentes no rasto intermitente dos insectos,
Letras de caça abatidas em ímpares palavras de pares indirectos,
Que se refugiam sob a pele das palavras com diferentes significados,
Parecendo iguais na descrição das lágrimas de olhares encurralados,
No pasto da cabra que há em mim entre ovelhas de negros afectos!

Continuo masturbando-me entre minha obsecada leitura,
Enquanto procuro o único orgasmo que nunca soube atingir,
Restando-me o prazer inacabado no incógnito final da procura!