sábado, 27 de junho de 2009

Belo


Subjectiva é a beleza,
Coisa linda, coisa linda,
Ou até mais linda ainda,
Análise intuitiva da delicadeza,
Ainda que mais linda não possa ser,
Há algo de mais lindo pelo meio,
Uma flor em oferta difícil de conter,
Mais linda do que possa parecer,
Jardim de magia cheio!

Gordos, muito gordos e amorosos,
Magros, muito magros e garbosos,
Pobres sem pobreza de olhos vindos,
Ricos e pobres todos lindos,
Belos ricos, muito belos e charmosos,
Pobres belos, muito belos e formosos,
Todos eles são bem vindos,
Dançam juntos felizes e curiosos!

Beleza sem condição é belo combustível,
Da máquina solidária em andamento,
Sobre a alegria do sentimento,
Sentindo toda a alegria possível,
Beleza em reinvenção apetecível,
Florescendo no pensamento!

Belo, belo, é ser-se lindo,
Gostar de o ser,
Admirar seu sorriso, rindo,
Ser-se belo e o merecer!

Pele de pele, bem lavada,
Cada um em sua pele bem vestida,
Indumentária humana consagrada,
Ostentação pela felicidade alimentada,
Partilha alegre, da alegria prometida,
Promessa linda de riqueza amiga,
Riso de prazer para o pobre,
Igual riso para o nobre
,
Verdadeira riqueza consentida,
Verdade bela pela vida exibida!

Subjectiva é a beleza,
A igualdade é um rosto perfeito,
Corações perfeitos em sua leveza,
Força da natureza a bater no peito,
Batendo docemente em macio leito
,
Leito de tão nobre riqueza,
Mantendo aquela chama acesa,
Para que pela bondade tudo seja feito!

Mas belo, belo, é mesmo o belo,
Tão belo que belo não se vê,
Ao não ver-se belo de tão belo,
Dizem que é belo sem saber porquê;
Talvez até nem seja tão belo assim,
Ou até um pouco mais,
O mais belo dos animais,
O mais belo odor do jasmim,
Flores belas no mais belo jardim!

A beleza é subjectiva,
Para a verdade é muito bela,
Na verdade é beleza à janela,
Sorriso aberto de beleza atractiva;
Beleza da pele admirável que cativa,
Derme que não esconde poética veia,
Verdadeira beleza de imaginação cheia!

O belo, por mais belo que o seja,
Pode ser belo aos olhos de quem o deseja,
Para os olhos dos olhos é o que parece,
Os olhos de quem almeja,
Olhos de Alma que a Alma oferece!

Belo, belo, é ser-se lindo,
E gostar de o ser,
Admirar seu sorriso, rindo,
Ser-se belo e o merecer!


Belos, belos, são pessoas com coração,
Rejuvenescendo no rosto belo de sua razão!

terça-feira, 23 de junho de 2009

Feio

A beleza é subjectiva,
Coisa feia, coisa linda,
Ou até mais feia ainda,
Superficial análise intuitiva,
Ainda que mais feia não possa ser,
Há sempre algo mais feio,

Um borjêço pelo meio,
Torpeza imunda difícil de conter,
Mais feio ainda do que possa parecer,

Odre seboso de peçonha cheio!

Gordos, muito gordos e formosos,
Magros, muito magros e famosos,
Pobres, muito pobres de olhos findos,
Ricos, muito ricos e todos lindos,
Belos ricos, muito belos e charmosos,
Feios pobres, muito feios e piolhosos,

Todos eles são bem vindos,
Espreitam os pobres à porta curiosos!

Pobreza é feio combustível,
Da máquina solidária em andamento,
Sobre os despojos do consentimento,
Consentindo a fealdade possível,
Beleza em decomposição apetecível,
Apodrecendo no pensamento!

Feio, feio, é ser-se feio,
E gostar de o ser,
Repugnante sem receio,
Ser-se tão feio e o merecer!


Pele de seda, bem tratada,
Fina seda bem vestida,
Indumentária de marca apropriada,
Ostentação pela miséria alimentada,

Para o anúncio da esmola prometida,
Promessa linda da riqueza amiga,
Vintém de escárnio para o pobre,

Cheque do tesouro para o nobre,
Pobreza de sua dignidade coibida,
Verdade Feia do pobre escondida!

Subjectiva é a beleza
A indigência é um rosto perfeito,

Perfeita é a pobreza,
Mina de ouro para o Direito,
Justiça deleitada em macio leito,
Leito de oportunista fraqueza,
Mostrengo de egoísta avareza,
Instituição de caridade posta a jeito,

Para o rico toda a riqueza
Para o indigente nada feito!

Mas feio, feio, é mesmo o feio,
Tão feio que feio se vê,
Ao ver-se feio de tão feio,
Sabe que é feio sem saber porquê;
Talvez até nem seja tão feio assim,
Ou até um pouco mais,
O mais feio dos animais,
De todos eles o mais ruim,
Descaro de ruindade feia sem fim,
Veneno à mesa de ricos comensais!

A Beleza é subjectiva,
Para a mentira pode ser muito feia,
Para a verdade feia e meia,

Para ambas uma feia atractiva;
Beleza da pele admirável que cativa,
Derme que esconde varicosa veia,
Falsa beleza de podridão cheia!

Feio, por mais feio que o seja,
Pode ser lindo aos olhos de quem o deseja,

Para os olhos dos olhos é o que parece,
Mesmo que pareçam olhos de inveja,
São olhos da Alma dos quais padece!

Feio, feio, é ser-se feio,
E gostar de o ser,
Repugnante sem receio,
Ser-se tão feio e o merecer!


Feios, feios, são pessoas sem coração,
Pessoas a apodrecer na cara feia de sua razão!

quarta-feira, 17 de junho de 2009

sábado, 13 de junho de 2009

A Pedrinha

Aquela Pedrinha,
Ali sempre quietinha,
Nunca se queixava;

Batia-lhe, batia-lhe,
E não pestanejava,

Doía-lhe, doía-lhe,
E ali ficava!
*
No regresso de cada tainada,
Presságio e arrepio do que não pedira,
O monstro desaustinado bêbado de ira,

Corria a Pedrinha à pedrada,
E por cada uma que lhe calhava,
Entumecia pelo ciume que o impelira!
*
Depois, com o remorso vinha a covardia,
Fugia o covarde para bem longe da Pedrinha,

Esquecia a justiça que na pedra merecia,
Mas não a pequena pedra mansinha!
*
Num dia cinzento a Pedrinha quis fugir,
Mas não tendo amigos para onde ir,
Ali ficou!...

À espera de quem a castigou,
À espera de mais um castigo;
Sabendo o que estava para vir,
Esperou por seu dono inimigo,
Que lhe bateu até quase a partir,
Mas a Pedrinha não se queixou,
E ali ficou!...

*
Num Inverno em que sol não havia,
Sentiu que tudo mudava;
A Pedrinha que antes sofria,

E pelo castigo aguardava,
Agora já não aguentava,
Veio mais um que a possuía,
Mais um que o sofrimento não via,
Se um a magoava,
O outro lhe batia!
*

Apostavam ambos a Pedrinha,
Naquele cruel jogo da vida,
Todos desejavam sua beleza de rainha,

Beleza dela mesma escondida;
Ora a perdiam,
Ora a ganhavam,
Ora a agrediam,
Ora a beijavam;
Se uns a maltratavam,
Todos dela riam,

Outros porrada lhe davam!
*
No fim de um Inverno,
A Pedrinha desapareceu,

Uns dizem que morreu;
Para a Pedrinha de olhar terno,
Acabara uma vida de Inferno!

Ninguém sabe o que aconteceu,
Àquela Pedrinha que nunca viveu!

sábado, 6 de junho de 2009

Réquiem


Sirvam-me lágrimas de dor,
Em bandejas dilaceradas pelo amor,
Esse Amor chorado,
Traído por sedução traída,
Traição germinada na lágrima consentida,
Pela lágrima do orgulho desprezado!
*
Chorem pelo sexo,
Chorem pelo Amor,
Chorem lágrimas sem nexo,
Chorem pelo meu pensar complexo,
Por favor,
Chorem por mim!...
Ao meu choro digam sim,
Tenham pena deste meu estertor,
Escondam de vós penas de dor,
Que as lágrimas não demorem,
Mas, por favor,
Por mim, Chorem!
*
Venham ao réquiem de meu orgulho,
Retenham vossas lágrimas e saboreiem o engulho,
Afoguem-me em minha missa dos defuntos,
Para que possamos por mim chorar juntos,
Lágrimas da miserável pena onde eu mergulho!
*
Cubram-me com vossas lágrimas sentidas,
Meu frio anseia por vossas lágrimas fingidas,
Afaguem minha esforçada vergonha serena,
Com texturas de vossas lágrimas de pena,
Fertilizante fracassado de lágrimas imerecidas,
Corpo meu de onde germina uma açucena!
*
Escondam de vós penas de dor,
Que as lágrimas não demorem,
Mas, por favor,
Por mim, Chorem!
*
Façam-me sentir vossas lágrimas desdenhosas,
Penetrando o útero de minhas lágrimas manhosas,
Fodendo a pena que pena tem de mim,
Fecundando veias onde voam mariposas,
Em voos carpideiros de choro sem fim,
Asas do não em prisioneiras asas do sim!
*
Todas as lágrimas são belos presentes,
Olhos de água de falsas penas risonhas,
Onde voam lágrimas de pena enfadonhas,
Entre pingos insípidos de sal imerecidos,
Prenda de pena desavergonhada de vergonhas,
Acabando desprezada na pena dos amigos!
*
Secaram agora todas as lágrimas alheias,
Hipocrisia amiga de lindas lágrimas feias,
Quase afogaram minha esquecida beleza,
Chorando desdém sobre minha tristeza!

*
Escondam de vós as penas de dor,
Que as lágrimas não demorem,
Mas, por favor,
Por vós, Chorem!
*
Aquelas açucenas brotadas de meu corpo,
Regadas com lágrimas de pena,
Ressucitam o olhar de meu olhar absorto,
Esperança desmedida de uma lágrima pequena,
Que zarpa do olhar daquele abandonado porto,
Navegando a Liberdade em tempestade amena!
*
Escondam os olhos das penas de dor,
Que as lágrimas não demorem,
Mas, por favor,
Por mim,
Antes do fim,
Não chorem!