terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Vento de Esperança


Não foi vento frio de Esperança,
Que da Esperança, minha Esperança voou,
Não foi a liberdade da asa que ficou,
Planando silenciosa e mansa,
Pairando sobre um olhar que amuou,
Olhar alcalino que já não cansa,
Fixando quatro paredes de morte
!

*
Derradeiro voo feliz de saudade,
Sorriso feliz que fez voar,
Passarito frágil de liberdade,
Oceanos cálidos de prazer,
Montanha de céu onde respiro viver,
Nuvens dispersas a desfragmentar,
Na providência de tenra idade,
Reverso químico da felicidade,
Cópia matriz de genético ser!

 *
Avançam pesadas sobre mim,
Epitáfios de negro recorte,
Jazigo íntimo de minha sorte,
Depois do calvário curto e lento,
Longo caminho de inconcebível tormento,
Tardando o vislumbre do fim,
Não sobrepondo a negação ao sim,
Chagando uma consciência já torpe,
De uma esvaída convicção forte!
*
Não foi vento frio de Esperança,
Que da Esperança, minha esperança voou,
Quando meu cabelo levou!

Não foi o vento da Esperança,
Que da Esperança, minha esperança voou,
Quando meu cabelo levou!

*
Anjos brancos que por mim voam
Velocidade da luz que por mim passa,
Trompetas que boas novas entoam,
Notas vivas que vidas enlaça,
Milagre germinado da desgraça,
Despedidas doentes que magoam,
Falsas partidas que a vida graça!
*
Não foi o vento de Esperança,
Que da Esperança, minha esperança voou,
Quando meu cabelo levou,
O mesmo vento de quem alcança,
A felicidade de trabalhar longa trança,
Do longo cabelo que voltou!
*
Foi vento de Esperança,
Que minha Esperança renovou!


terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Fala com Ela

video
* Do filme "Hable con Ella" (2002) realizado por Pedro Almodóvar

domingo, 18 de janeiro de 2009

Jesus II

Anjo negro, juiz novo,
Ergue-se lento, rasga o ovo,
Escolhe, e do álem me chama,
Acusa-me de ser estorvo,
Culpa-me de ídolo sem fama!


Anjo negro, juiz novo,
Ergue-se lento, cospe fogo,
Aponta a sorte, o punho cerra,
E vagueia frio sem razão,
Pesado sem tocar o chão,
Por entre as verrugas da terra;
Não rasteja, não voa,
Não reza, não perdoa!

-Porquê?, pensas tu com medo,
Sem veres que já não vês o mundo,
E ele diz: -Sou rei jesus II,
E será este teu último segredo!

Botas negras, duras, brilhantes,
Sandálias de couro gastas, esquecidas,
Brilho de ódios-estrela, diamantes,
Novos milagres, voluntários suicidas;
Qual Peixe?
Qual Pão?
Milagres?!...
Não belos monstros covardes!
Porquê, pensas tu com medo,
Sem veres que já não vês o mundo,
E ele diz: -Sou rei jesus II,
E será este teu último segredo!

Chuva que não molha,
Chuva que queima, miudinha,
Cevada que pinga, fumo que te olha,
Chagas profundas cobertas de morfina;
Milagres?
Pão?
Rosas?!...
Vampiros alados!
Adeus mariposas,
Adeus pelicanos, adeus pombas,
Adeus cravos, trevos, mimosas,
Saboreiem este cocktail de bombas!
Milagres, milagres novos,
Chocam outros ovos,
Aninhados bem lá no fundo,
E ele diz: -Sou rei jesus II.


Fraco encosta-se a ti,
Abre os olhos ao negro céu,
Olha-te nos olhos e sorri,
Baixa a cabeça, escorre-lhe o véu!

Abraças aquele alívio profundo,
E dizes: -És rei jesus II.

sábado, 10 de janeiro de 2009

Como um Por do Sol de Areia Fina




Pairo sobre o gelo da tristeza,
Sepultada sob o manto pesado de neve,
Não por minha alegria longa e breve,
Ou minha egoísta avareza,
Cega a tanta promessa indefesa,
Que boceja indiferente e leve,
Sofrendo em silêncio clandestino,
Exilado em terra de anónimo destino,
Escrito pelos homens novel enredo,
Prémio de glória consagrada no medo,
Covardia minha a qual abomino,
Por tão ganancioso degredo!

Na penumbra branca do desprezo,
Congelo-me sonâmbulo esquecido,
Sonhando degelos de glaciar amigo,
Em sonho de brasume aceso,
Onde meu corpo arde e sai ileso,
Por dormir sobre Amor perdido!

Como um Por do Sol de areia fina,
Preso numa ampulheta sem tempo,
Escorre de uma âmbula cristalina,
Para a âmbula de igual momento!

Tudo Escorre por entre os dedos,
Neve fria e seus segredos,
Como um por do Sol de areia fina!

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

Um de Mil


Um dia de mil noites,
Uma noite de mil estrelas,
Uma estrela de mil brilhos,
Um brilho de mil desejos,
Um desejo de mil amantes,
Um amante de mil mulheres,
Uma mulher de mil homens,
Um homem de mil Amores,
Um amor de mil filhos,
Um filho de mil pais,
Um pai de mil preocupações,
Uma preocupação de mil mães,
Uma mãe de mil esperanças,
Uma esperança de mil corações,
Um coração de mil crianças,
Uma criança de mil perdões,
Um perdão de mil assassinos,
Um assassino de mil vidas,
Uma vida de mil inocentes,
Um inocente de mil acusações,
Uma acusação de mil invejas,
Uma inveja de mil afagos,
Um afago de mil carinhos,
Um carinho de mil anjos,
Um anjo de mil asas,
Uma asa de mil pombas,
Uma pomba de mil liberdades,
Uma liberdade de mil condenados,
Um condenado de mil leis,
Uma lei de mil juízes,
Um juiz de mil veredictos,
Um veredicto de mil culpados,
Um culpado de mil Crimes,
Um crime de mil salvamentos,
Um salvamento de mil vidas,
Uma vida de mil pacientes,
Um paciente de mil dores,
Uma dor de mil solidões,
Uma solidão de mil desertos,
Um deserto de mil miragens,
Uma miragem de mil oásis,
Um oásis de mil sedes,
Uma sede de mil gargantas,
Uma garganta de mil gritos,
Um grito de mil desabafos,
Um desabafo de mil silêncios,
Um silêncio de mil guerras,
Uma guerra de mil Armas,
Uma arma de mil gumes,
Um gume de mil investidas,
Uma investida de mil fecundações,
Uma fecundação de mil fetos,
Um feto de mil gerações,
Uma geração de mil brasões,
Um brasão de mil reis,
Um rei de mil povos,
Um povo de mil conquistas,
Uma conquista de mil árvores,
Uma árvore de mil frutos,
Um fruto de mil sementes,
Uma semente de mil Universos,
Um universo de mil palavras,
Uma palavra de mil sentidos,
Um sentido de mil… e um Sentimentos!...
*
Sentimento de quem sente,
Que não sente o que amava sentir,
Sentindo tristeza ao sorrir,
Pela teimosa esperança presente,
Daquele sonho eminente,
Sempre, sempre estando por vir!

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Amor...


Noite após noite,
Dia após dia,
Perdido por ti no seio de coisa nenhuma;
Noite após noite,
Sem dias após dias escondidos, a levedar,
Noites, após noites.
Amor!...
Numa queda sem fim,
Até te encontrar,
Até esquecer-me de mim.
Não após não,
Sim após sim,
Apenas Amor,
Sem dor,
Apenas coração!

Amor é viver,
Saber como o fazer!....
Amor sou eu,
Este esbelto corpo que é meu,
É a força do querer,
À submissão do meu poder, que pensas ser teu!

Amor é matar, trair, conquistar,
É o Ser!...
Amor é morrer!...
É desistir de mim, é… Amar!
É sentir e ser sentido,
Sacrificar teu mundo,
Esquecer um Amigo!...


Amor?!...
Não chega a tanto,
E é mais do que tal,
É veneno nas veias,
É açúcar no sal,
Uma mosca tecendo teias,
Aranhas de pedra e amantes de cal.


Complacente com a placenta,
Que não assenta,
Em minha silhueta acentuada?!...
Não!... Tenho uma placenta em ti,
Aguardando minha consciência de mim,
Que eu Amo até ao fim;
Amo amar-me,
Amo-me mais ao que podes dar-me,
Amo demasiado, no espelho, as medidas certas,
Para poder amar o Amor que despertas!


Será Amor verdadeiro,
Isto que sinto pelo dinheiro?...
Como?!...
Amar-te se não vais existir,
Amar-te, decisão minha tomada?!...
Como?!...
Amar-te, se não pudeste resistir,
Amar condenação de “coisa” rejeitada?!...


Meu Amor sou eu oferecendo agenesia,
A liberdade conquistada,
Noite após noite, dia após dia.


Como Amar-te, se o Amor que ficou,
Regenera-se por cada prazer que dou?!...


Amor?...
Vai sempre mais além,
É mais do que tal,
Não é veneno nas veias,
Nem açúcar no sal,
Não é uma mosca a tecer teias,
Nem aranhas de pedra e amantes de cal!...


É, para lá do que imaginas, o Melhor,
É Amor, uma razão Maior!

sábado, 3 de janeiro de 2009

Traição de Amor Póstumo


Cada vez se tornou mais igual,
Ao pior sangue do mal,
Devendo-o à vida,
De um corpo exangue!...
A memória está ausente de sangue,
Do corpo nem pó parece restar,
Pelo que o vento parece ser o mais forte,
Entre tudo e a honestidade justa,
De outros tempos em que um era mais nítido ao outro,
Sem esforço ou porque quisesse que assim fosse!
Agora, sem esforço,
Permanece aparentemente sob a terra,
A uma profundidade normal,
Para justificar algo que algo encerra!...
De repente,
O tempo parece não ter passado,
A memória reacende-se das trevas,
Voltando a iluminar,
Um passado de respeito conquistado.
Agora seu sangue é outro sangue,
Já não o aquece,
Nem arrefece,
Correndo em suas veias;
Talvez tenha acontecido uma transfusão,
Uma transfusão um pouco Divina,
Ou, pelo menos, misteriosa,
Misteriosa quanto o apelo das sereias!...
Sofrendo num estado indolor,
Sente perturbarem sua alma,
No purgatório dos sentidos,
Porque mancham seu sangue,
Bebendo de sua honra como quem sorve suor,
Cuspindo-o de seguida,
Para um monte de porcaria sem sentido,
Sem fundamento!
Sente um espasmo explodir-lhe o peito,
A impotência fervendo enlouquece-o,
Num tormento,
Voltando a reacender a luz,
Daquela memória que o aflige!

Sem qualquer esforço de vontade,
Numa ínfima esperança,
Deixa-se ficar à mesma profundidade,
De quem no outro lado, não o alcança!

quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

Dependência do Arrependimento



Tão alegres e dependentes,
Que só nossas mães ousam levantar a voz,
Para acabar como elas tão sós,
De nós, concebidas sementes,
Para que não possa dizer que mentes,
Não me deixes dizer também:
Ai de mim, ai de ti, ai de nós!
Também jamais pensara nesta idade,
Porque dos anos não tinha piedade,
Tão só esquecimento e saudade!

Não me lembro da Terra,
Quero lembrar os amigos,
Não me lembro de tempos antigos,
Quero uma impessoal guerra,
Mas por minha desgraçada sorte,
Sou mais um a não querer a morte,
Apenas o segredo que ela encerra!

Já me lembro!... És tu amigo?!...
Não!... Apenas um reflexo do passado;
Sim, quem sabe, um sorriso antigo,
De quem sofra, talvez, por ter errado!

Tão tristes e dependentes,
Que só nossas mães ousam levantar a voz,
Não me lembro de tempos antigos,
Gostava de recordar os amigos,
Se soubesse distingui-los a sós,
Entre nós e outras gentes!

Agora, de toda uma vida menor,
De tão linda e rica que era,
Fodeu-se a juventude que me esquece,
Por tão cheia vida maior,
Já minha vontade não é uma fera,
Mas um inimigo, parece!