domingo, 31 de maio de 2009

Notas Madrastas

Aquela nota madrasta,
Que por ti se atrai e arrasta,
Lavra branca de filhos em linha,

Cinco linhas de um olhar que basta,
Alegro marialva que de fininho definha,
Ressuscitando cada alma de nota sozinha,

Libertino triste que de ti se afasta!

Rouxinol de papel em poisos de pentagrama,

Solta pio escondido que cresce de mansinho
Trovão de elevada ode afogada na lama,
Substituída arte por arte de triste fama,

Canto lírico de tonto poeta sozinho,
Trinado falso de manhoso comezinho,
Falsa voz que o canto roubado clama!

Enteados geniais esbatidos na vaidade,
Esganiçados falsetes de opereta fugaz,

Piano mudo onde a voz jaz,
Afonia de tenores de sorte finada,

Por eles tão nobre arte desprezada!

Poalha de ouro em notas de poalha,
Poalha que baila em poalha de si,

Áudio poluto de poluta gralha,
maior doído em queda nota de mi,
Forçado farfalho do que falha,
No que denota notas de fado putedo,
Melodia escrava de chulo-pó traiçoeiro,

Desvanece-se relento pelo nevoeiro,
Desaparecendo na pauta rameira do enredo,
Tão misteriosa que por semeou o medo!

Aquela nota madrasta,
Espreitando da noite que a toca,
É nota envergonhada e gasta,
Composição de nota pura e casta,
Alegro triste que seus filhos invoca!

quinta-feira, 28 de maio de 2009

domingo, 24 de maio de 2009

Prelúdio para a Fecundação


Escorrendo de teus olhos,
Espreguiço-me sobre teus seios,
Onde saboreio todos os poros,
De teus secretos devaneios!
*
Doce desculpa para atrevida carícia,
Que Deus fez com doce malícia;
Aperta-se o seio com mais firmeza,
Doendo o queimar daquela brasa acesa,
Mas, doce dor, controla com tal perícia,
Que o rude gesto é doce delicadeza!
*
Batida nervosa da paixão,
Embalo à solta de alegria,
Música doce para o coração,
Silêncio doce, incontida melodia!
*
Não é Inverno nem Verão,
O frio não é calor, nem este é frio,
O clima surpreende fio a pavio,
Ao relâmpago já não sucede o trovão,
Todavia isso já não interessa muito,
Porque há uma tempestade de Amor,
Algures, entre um par fortuito,
Que, felizes, numa onda de calor,
Ternura, respeito, paixão e prazer,
Estreitam-se, tocam-se, beijam-se,
Até que o instinto os leva a fazer,
O que sempre souberam;
Afundam-se num imenso mar doce,
Que saboreiam sôfregos, e não fosse
A resistência natural das coisas vivas,
Invernariam naquela Primavera de prazer,
E despertariam apenas em Maio,
Para o mesmo Amor experimentar fazer!
*
Hoje, vinte anos de carícias depois,
Guardo carícias de tão Krystal barriguinha,
Fortaleza viva de maternal ternura,
Que de uma enorme vida pequenininha,
Se fecundando com equivalente candura,
Sem ruído, sem tristeza, sem um ai,
Foi envaidecer-me a mim, o Pai!

terça-feira, 19 de maio de 2009

Amor Sedento



Amor?!...
Eu Amo o vinho!
Bebo um copo,
Bebo dois,
Bebo três,
Envinagrados, retintos e carrascões,
Feito à martelada, vomitado de borrachões,
Nele me afogo trinta dias por mês,
Não me importo com opiniões,
Viro um garrafão de uma vez!
Nele sou tudo que me apetece,
Bebo quanto vinho aparece!

Só minha sede não bebo,
Só minha sede não bebe!

Eu Amo a cerveja!...
Bebo uma, duas, três,
Bebo quanta cerveja houver,
Afogo-me em aguardente,
Bebo quanto álcool vier,
Bebo sôfrego repetidamente,
Seja o que Deus quiser!

Só minha sede não bebo,
Só minha sede não bebe!

Bebo do cálice que se segue,
O meu amor que não durará,
Fito a caneca que beijarei,
E minha sede se apaixonará,
Mas a sede não matarei,
Minha sede sobreviverá!...

Só não resiste minha sede,
Na água pura de Krystal,
Água fresca que não vejo,
Água fresca que não há,
Água fresca que eu desejo,
Amor louco que me matará!
*
Só minha Sede não Bebe,
Só minha Sede não Bebo!


quarta-feira, 13 de maio de 2009

sexta-feira, 8 de maio de 2009

Espelho


Estranho este estranho despertar sem norte,
Sul invertido de uma estranha projecção forte,
Enigma do olhar fitado na cópia do avesso,

Fitando quem a hipnose fita em visão torpe,
Confusa visão em convexa cicatriz de corte,
Rasgado mundo de esvaído sangue espesso,
Tua expiação de meu leve sorriso que entristeço,
Vida contrária reflectida no contrário da morte,

Reflexo ausente da imagem ausente de sorte,
Cópia clara da perfeita luz que escureço!

Tocamos nossas mãos que não se tocam,
Aproximam-se meus etéreos lábios dos lábios teus,
Beijo volátil em anestesiados lábios meus,

Amor proibido que teus olhos evocam,
Íris que meus medos teus medos focam,
Transparente reflexo sem alma e sem Deus!

Concha lisa onde abraço o eixo de luz fulgente,
Deslizo Danças sedutoras de brilho cintilante,
Sigo teus passos de meu passo teu amante,
Dimensão fugidia de tão igual miragem diferente,
Fugindo de mim ao teu encontro incessante,
Côncavo de teu efémero abandono indulgente,
Convexo de teu corpo despojado de meu sangue quente,

Repouso em ti que em mim repousas expectante,
Equilíbrio sobre esfera em descontrolo iminente,
Espanto duvidoso de uma certeza hesitante!

Krystal de luz em trajectória angular,
Investida suave no reflector DiVerso que diverge,
Desvanecendo a hipnose de fixação crepuscular,

Raio de Sol sem reflexo que do Amor emerge,
Infinitas partículas de espelho em interdito mirar,
Desvanecido narciso no crespúsculo aquático submerge,

Feitiço meu que só eu, tu podias quebrar!

Somos agora dois reflexos frios do sangue que temos,

Estátuas frias de vidro que do outro lado vemos,
Frio Amor cúmplice de igual pensamento,
Bizarra imagem doente pela qual morremos,
Vislumbre culpado de espelhado momento!

Estavas tu tão perto, atrás de mim do outro lado,
Espelho de mim em reflexo desperdiçado!

sábado, 2 de maio de 2009

Filhos de Maio


Maio de Bona Dea fertilizado,
Deusa virgem saudável e frondosa,
Delicadeza atrevida de jovenzita curiosa,
Pronta para pecar sem pecado,
Maio por flor de tentação tentado,
Frescura de maio, Fauna Fogosa!

Somos filhos de Maio, Profeta do Destino,
Fruto de Árvore fértil da deusa Mãe,

A ti cantamos em agradecido Hino,
Por férteis nos tão dotares também!

Mas por cada Maio que passa,
Passamos por nós passando por alguém,
Iluminando o tempo que nos trespassa,

Luz de perda que de esperança nos graça,
Maio próximo longe de ninguém,
Poder libertador que o Maio tem!

Um bolo, prendas e mágica vela,
O mistério da incerteza que por aí vem,

O Prazer que pela Vida soçobrou,
Espreitando por uma intemporal janela,
Na penumbra, ri-se de nós com desdém,
Porque aquela data que passa, passou!

Jamais voltaremos a ter,
O que havíamos sonhado ter tido,
Resta-nos olhar para trás e ver,
Livros sábios que devíamos ter lido!
Encostamo-nos, começamos a desesperar,
Esperneamos berros para nos fazermos notar,
Mas não sabendo quem nos vai ouvir,
Rimo-nos tristes de dor sem sentir,

Nos outros aquela indiferente surdez,
Que nós não desejamos mas que Deus fez!

Agora, de sempre, amigos de Maio,
Em cada Maio sabemo-nos “feitos ao bife”,
A verde juventude já nos olha de soslaio,

Há quem ache o destino um grande patife,
Daqueles tenros aninhos só resta a memória,
Mas, bravos touros de maio, saibam que...

Fazem parte da minha história!

sexta-feira, 1 de maio de 2009

Filósofo de Capoeira



Admirável capacidade de autodestruição,
Naquele ovo onde o plebeu é rei;
Discursa, ordena, distorce a lei,
Qual senhor guerreiro esporão,
Contesta a vida, a tudo diz não,
Respondendo ao que sabe,
- Não sei!

Está encrespado na casca da utopia,
Natural condenado a fugaz existência,
Faz de conta que domina a sabedoria,
Ignorando seu vazio total de inteligência!

Morrerá ainda no cu da galinha,
E mesmo que Deus lhe valha,
Já sorte terá se cair na palha!