domingo, 3 de outubro de 2010

Ironia do Zé Ninguém



Como sofria aquele Zé Ninguém!...
De olhar caído nos subúrbios de Deus,
Pendia dos cílios de uma solitária mãe,
Que adormecera nos sonhos de ser alguém,
Visão comprimida no amplexo dos olhos seus!

Deixando-se afogar em remoinhos salgados,
Sentia o oxigénio fugir na frialdade dos castigos,
Que emergiam na superfície dos oculares abrigos,
Escondidos na dor da retina de olhares segregados,
Quase cegos pela sobrevivência de amores antigos,
Afogados na separação das lágrimas de olhos amigos,
Pelo transbordo incerto dos opostos ângulos cruzados!...
Como sofria aquele Zé Ninguém!...
Entre sulcos das rugas inertes dos rostos abandonados,
E os raros cabelos grisalhos, penitentes de cabelos caídos!

Possuído por espíritos em agonia,
Despidos da luz de muita alma dilacerada
Rasga-se a lâmina atrás da pálpebra suturada,
Por vacilantes tentativas de suicida travessia,
Dos caminhos sem saída empedrados de nostalgia,
Esses atalhos resignados de tristeza consumada!...
Como sofria aquele Zé Ninguém!...
Pelos extenuados olhos tristes cheios de nada,
Espelhos embaciados por esquálida melancolia!

Corpos moribundos arrastavam-se no negrume da tristeza,
Esgadanhavam ténues memórias de punitivas loucuras carnais,
Onde carpiam desabafos abafados às lágrimas de sua fraqueza,
E ali definhavam as almas abandonadas à verdade da crueza,
De corpos irreconhecíveis na humanidade de trapos imorais!
Como sofria aquele Zé Ninguém!...
Ao ver aqueles pecados vivos transformarem-se em mortais,
Enterrando a felicidade viva na sombra morta da beleza!

Ninguém, Amava o Amor que o Amava,
Fazia Amor com o Amor que Amor com ele fazia,
Lambiam mel sem fim que de seus corpos escorria,
Entre orgasmos intensos do prazer que os abraçava,
E os pecados simultâneos que a felicidade defendia,
Perdoados por Deus que suas almas não julgava,
Pelo prazer do Amor recíproco que Ele protegia!

Afirmam ser um mortal pecado de alguém,
Mais de mil anos de prazer e Amor imenso,
Do Amor fiel e o libertador orgasmo intenso,
Almas abandonadas que olham com desdém,
A respeito do Amor e aplicado bom senso!...

                                                E como sofria                 aquele Zé Ninguém!
                                                                            por eles

3 comentários:

epee disse...

Uma vitrine. Um espelho. Muitos reflexos.

Um poema que coaduna inspiração com crítica, abastecido de formas artísticas, característica diVersa, animado pela “Ironia’, retrata o ‘sem-sentido’ do que aparenta fazer sentido, no posicionamento ‘do Zé Ninguém” frente ao ‘uni’verso e seu relacionamento com ele.

“Como sofria aquele Zé Ninguém!...” ao observar os caminhos pelos quais a sociedade estava sendo conduzida, na reivindicação permanente do status desmedido e de seus valores tão controversos.

Na vitrine, a linguagem poética de DiVerso, expõe a mercadoria, mas não a coloca à venda.

Ao contrário.

Krystal nos convida a apreciá-la, ou criticá-la se for o caso. Não importa. Mais importante é a natureza moral, inerente ao fato que provemos ou não de determinados bens materiais ou simbólicos, através do chamamento, na reflexão dos versos, o crescimento, que KrystalDiVerso, forçosamente nos provoca.

E assim, como a ideologia de consumo reflete a sociedade onde nos encontramos, DiVerso expõe as faces da dimensão afetiva que devemos priorizar, presentes em todos universos: real e [mesmo] irreal de consumo.

“Como sofria aquele Zé Ninguém!” tem na cor do laço de fita, que finaliza a beleza da embalagem, azul. Não é vermelho. Não há paixão. Não há desejo.

Talvez, apenas um Zé. Mas nunca um entre muitos. Um Zé, que sendo Ninguém, torna-se Alguém.

Alguém que faz da voz, do grito, ou do dedo em riste, a socialização da poesia na experiência que vivencia e para tanto, se basta n“o Amor que o Amava”.





Boa semana, DiVerso.

epee disse...

E o mundo seria, não sei se mais bonito, talvez menos feio, se outros 'Zés', que sendo Ninguém', existissem.




epee disse...

Um “Zé” Alguém, num poema entre tantos. Um verso inVerso, num palco de plateia certa.

Um “Zé” de Alguém, numa vida poética. Um poema. Uma cor: Azul. Uma saudade... que não passa!

“...se outros 'Zés', que sendo Ninguém', existissem.”


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