quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Filhos das Tristes Ervas


Entre as sombras de linhas e o advérbio invisível,
Esgueira-se na noite uma verdejante alma sensível,
Longe dos caminhos perdidos de inúteis catervas,
Modificando o sentido sofrido de um verbo risível,
No modo de ser das palavras suas humildes servas,
Amenizando a intensidade dos tempos sem reservas,
Circunstâncias indicadas de pensamento concebível,
Fogo gravado na capa pobre por pequenas minervas,
Favor queimado na pele dos filhos das tristes ervas!

Entre linhas sombrias e o invisível advérbio solitário,
Brilha o olhar cabisbaixo da vergonha e seu contrário,
Infâmia de um penitente, inocente de sua condição,
Triste Pobreza quase daninha em consagrado glossário,
Léxico rejeitado em abandonados ermos de perdição,
Onde crescem arcaicos termos adverbiados de rejeição,
Verde erva sempre verde na esperança de um corolário,
Proposição lógica de impoluta Alma por justa asserção,
Culpa da inocência, por ser erva, dada à luz na redenção!

No modo de ser das palavras, suas humildes servas,
Vivem inocentes os solitários filhos das tristes ervas!

Conspiraram nas searas as gramíneas virulentas,
Pintando céus azuis com arrebatadas opiniões cinzentas,
E de pungidas lembranças de silenciosos galrachos parasitas,
Desenham-se veracidades sobre testas de ferro truculentas,
Lavando o rosto de aparentes chupins de si mesmo eremitas,
Despindo inverdades danadas na lavra de insuspeitas desditas;
Restou todo um céu celeste sem falsas palavras nebulentas,
Revelando fracas ervas pelo valor de uma erva mágica sedentas,
Magia que da pobreza nasceu como ervas de ouro descritas!

Voam entre reis, caminham no seio de pessoas benditas,
Respeitando o modo de ser das palavras, suas humildes servas,
E vivem felizes como inocentes e solitários filhos das tristes Ervas!

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Sidéreos Olhares distantes



Pesado sob esperanças de tua memória apagada,
Caminhas absorto entre alheias memórias de nostalgia,

Levitas sereno no efeito monótono de uma rima forçada,
Adivinhando redundantes palavras de copiada monotonia,
Sendo tu, ponte atravessada sem fim de reiniciada melancolia,

Sobre teu sangue o qual corre inseparável da tristeza causada,
Pelo defeito distante de um rasgado sorriso à doce gargalhada,

Saboreias o primeiro momento petiz de teu desmemorizado dia,
Tão igual sabor amargo do adeus à tua infantil despedida adiada,
Tua primeira esperança em adoçado som de estranha harmonia!


Desenhas jardins celestes entre arco-íris de colorida felicidade,
Semeias colheitas de meigas flores crescendo no teu largo sorriso,
Convidando tristezas sem fim ás oferecidas tentações do paraíso,
Dócil flor forte de macieira adivinha de irrecusável docilidade,
Tão capaz de pintar frutos de esperança com cores de eternidade,
Na fantasia sidérea onde teu olhar ingénuo brilha de perdido siso,
Traduzindo surreal quadro admirável de improvável cumplicidade,
Sobre um insolente esboço casual de misterioso traço impreciso!

O frio solitário que aqueceu tua derradeira noite escondida,
Foi veste volúvel feita à grandeza ardente de tua alma despida,
Que por breves momentos de teu velho desejo ficou ausente,
Deslizando escondido sobre o gelo azul de um frio diferente,
Passiva solidão reversível onde tua vontade jaz adormecida,
Reverso derretido descongelando teu sentir premente!

Brilham agora tuas lágrimas, fora do tempo, amantes,
Como que sempre esperasse um impossível sinal fulgente,
O mesmo sinal que se esvai nas vias de possibilidades distantes!
*

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

O Fim do Tempo que Vem

*
O Fim do tempo que nosso tempo de mãos abertas aguardou,
Como se de um tempo de todos os tempos nosso tempo tratasse,
Por cada tempo que no tempo passou e parado no tempo aguardasse,
Aguardando naquele tempo tratado que pelo tempo o tempo tratou,
Acordo temporário gravado na Esperança que no tempo perdido gravou,
Esperanças temporãs do tempo na espera que o tempo fecundasse!
*
E o tempo que sempre passa,
Passa por não ser o tempo pelo qual teu desejo passou,
Passando por ser tempo escondido de nova esperança traída,
Não passa de adiado tempo passado por momentos de fé vencida,
Vencendo os mesmos momentos que o tempo de ti e por ti se guardou,
Guardando teu resguardado tempo que no tempo certo do tempo se libertou,
Voando nas asas do tempo em adejado voo sobre tua hora prometida!
*
Mas tudo que do tempo resta é a silenciosa profecia caída em graça,
Desgraçada na ideia calada do tempo de sempre que passa!
*
São bem vindas chaves de ouro que brilham no tempo fechado,
Olhos fechados de promessas douradas semeadas no credo do tempo,
Fechaduras intemporais das palavras prisioneiras em celas de vento,
Brisa que desliza nas goelas de um passageiro por alguém arrebatado,
Descrente de tudo na crença do nada é falsa volta de pião desatinado,
Rodopiando no avesso do sentido contrário à mágoa do desalento!

*
Fechaduras de mil línguas que dos tempos fantásticos se servem,
Portas fechadas que de tempos a tempos prometiam abrir-se ao alento,
Do último dia, volta o primeiro de onde as mesmas dúvidas se erguem!
*
Mas tudo que do tempo resta é a silenciosa profecia caída em graça,
Desgraçada na ideia calada do tempo de sempre que passa!
*

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Desausência ausente (Vão de Ausências Vãs)


Procurando certezas no labirinto fechado dos dias,
Tenteias corredores onde não encontras o que procuras,
No equilíbrio vão contornas-te em tuas linhas inseguras,
Contorcendo atrevidos ângulos curvos pelos quais te guias,
Visão azimutal reconstruída no círculo que só tua vias,
Clarão de teu Destino, prisioneiro de tuas agruras!

Navegando sobre tua água que alguém não soube,
Naufragou no Amor vão de quem pouco amou,
Abraço das Ondas que o braço do Oceano abraçou,
Oceano minúsculo onde um Mar de Amor não coube,
Distância salgada que a Amor doce pouco soube,
Causa de sede distante que teu desejo não saciou,
Amar de sal onde teu potável Amor afundou!

Naufrago sedento nesse teu sal que me alimenta,
Cresce minha sede que por tua ausência me atormenta,
Vã tormenta salgada possuindo-me em turbilhão de sede,

Sede sagrada benzida em Oceano intransponível de água-benta,
Água baptismal que tão perto de tua alma à deriva esteve,
Baptista de nossas almas gémeas salvas nos nós de nossa rede,
Ausência doce que ausente de nós na salácia concentida se assenta!

Ausente enquanto navegas velas rasgadas de tua memória,
Desato o nó sagrado do cruzamento que por ti se aguenta ,
Liberdade conseguida na vã ausência que te leva à Victoria!

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Abraço Triste do Nosso Sofá


Colhidos no sofá,
No conforto em que nos amamos,
Provo fungos mágicos em ideias que cultivamos,
Cioso de minha certeza na certeza que não há,
Esfiapo alucinações num fiapo que sobrará,
Fio fino amarrado ás dúvidas que despojamos,
Visão alucinada dependente do que não se verá!

Crescem cogumelos em coleantes sofás mundanos,
Zig-zag envenenado entre nuvens de luz confusas,
Metamorfose psicadélica em raios de traições difusas,
Poeira que flutua na órbita de teu corpo celeste,
Arcada orbital tua de minhas ténues visões oclusas,
Formas de teu corpo que delas por mim se despe,
Amanita ressuscitante de vida que por ti se veste,
Conforto no aconchego fraco de vistas obtusas,
Alucinatório de improvisada cama agreste!

Aludas solarizadas em frascos de mil cores,
Nadam intermitentes em filtros de asas casuais,
Desaparecem no desencontro de mil neons brumais,
Afogados voos comprimidos na descompressão de mil amores,
Alucinando prólogos finais em assinados sofás pensadores,
Personalisando efeito vertiginosos no ciume dos sinais,
Singular refúgio acolhedor, analgésico de mil dores,
Susceptíveis trips de mordazes despeitos fatais!

Só, em nossa fria cama de triste solidão imensa,
Recolhes-te em concha de pérola solitária abandonada,
Implodes teus gritos silenciados por tua dor intensa,
Bebendo tuas lágrimas imerecidas de imerecidas ofensas,
Aumentando a certeza de minha sede de dúvida revoltada,
Me enchendo na fome de ti por tua ausência subordinada,
Imenso Amor aflitivo que teu Amor aflito não dispensa,
Exíguo conforto recostado no medo de tua sentença,
Minúsculo sofá nosso, noites frias de minha madrugada!

Lágrimas solarizadas sob copas de laminadas alucinações,
Filtros tingidores de nossa alma que novas cores abomina,
Procuram a brancura de lençóis que a clareza reanima,
Rasgando adrenalina míope de conseguidas ilusões,
Mistérios desvendados na consciência dos corações,
Irresistível tentação prismal que por ambos se aninha!

Lágrima triste que nosso choro não chora,
Escorre em nosso sofá negro que me recebe,
Análise deturpada afogando quem de si bebe,
Alaga tua almofada enchida com sonhos d´outrora,
Só não mancha os lençóis que nosso Amor vigora!

Quando pensares que um sofá é cama segura de acolhimento,
Capaz de apaziguar o venenoso cogumelo fodido que te devora,
Sentirás numa só noite a verdade de teu verdadeiro sentimento!

domingo, 22 de novembro de 2009

Pecado Mortal


Do Filme "ANTICHRIST" de Lars Von Trier (2009)

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Castanhas de Teu Ouriço


Desapegada no destino pelo ramo de seu senhor,
Cedo sentiu-se despida do protector seu manto,
Que delicado causou cobiçadas causas de espanto,
Ainda que vestida em matiz de castanho tentador ,
Brilhava envolta num orvalho de feliz pranto,
Liberdade grata ao abandono em antecipado alvor,
Sentiu-se a pretendida em seu pretensioso rubor,
Enfeitando a madrugada com seu Outonal encanto!

Casta castanha que do castanheiro se desprendeu,
Nascendo para ser casta igual a tantas castas iguais,
Geminada em três irmãs geminadas em outras mais,
Espinhos de viçoso ouriço que por elas sofreu,
Alcofa segura que em abraço sempre as protegeu,
Em armado seu peito de suspeitos espinhos fatais,
Jurara separar-se delas se nelas sentisse seus ais,
Abrindo-se delas pela natureza que o convenceu!

Apetite vicioso da boca ougada por ti aguada,
Exposta carne despida da mais fina pele tua,
Desejo seco pela tua bravia forma descascada,
Secando no desejo de irresistível castanha pilada,
Pilada por desejos febris no teu Sol de castanha nua,
Vai secando paciente na fornalha fria que desagua,
Como fogo chegando no vento da corrente soada,
Ecos ávidos colhendo-as entre uma carícia disfarçada,
Passam subtis movimentos pelo cu tenro da castanha,
Denunciando o ciúme que por outra castanha se amua,
Sedutor ciúme fraterno colhido do ouriço que arreganha,
No calor do brasume que seu corpo adoçado acompanha,
Prémio ou castigo em noite farrusca de castanha assada,
Onde arde de desejo a boca que por elas se assanha!

Diferente de suas irmãs vestidas com casca talhada,
Castanha morsecada por dentes que a hão-de morder,
Será cozida em delicioso desejo de a lamber;
Castanha cortada em fino corte frio de navalhada,
Assará em delicioso brando desejo de a comer!
Castanha esquecida,
Que os olhos não puderam ver,
Castanha virgem consumida,
Atirada para a fogueira abrasada,
Incha numa contida e quente gargalhada,
Que soltará rebentando numa boca atrevida!

No souto farto em solo de teu incansável coração,
Castanhas Piladas envelhecem para um prazer tardio,
Guardando-se para especiais momentos de paixão,
Admiráveis momentos selvagens de prazer vadio!

Frutos teus que conservam teu misterioso feitiço,
São tua enfeitiçada doce tentação,
Castanhas de teu Ouriço!
*

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Abcissa de teu Tapete


Tapetes sob tua existência submissa,
Cobrem teus vitupérios oferecidos à razão,
Certeza variável no domínio da função,
Corpos despojados no leito de uma abcissa,
Erro da ciência exacta que teu desejo cobiça,
Incógnita convertida em seduzida possessão!

Varrem teu corpo para fincados corpetes,
Finas fitas de cetim asfixiam delicados tapetes,
Tez de seda tatuada por mil agulhas de morfina,
Pigmentação irreversível do desígnio providencial,
Ópio injectado em tua prostituída auto-estima,

Renúncia tua servida em orgíacos banquetes,
Oferta sacra dos sacrificados corpos sem ritual,
Enxofre ardendo em esverdeado pus celestial,
Envenenada neblina de tua Alma que por ti definha,
Varrida beleza tua, perdida em tua aura divina,
Vassouras de teu desejo por sexo ornamental,
Sapatos ricos atravessados por mil alfinetes,
Sobre o capacho de teu imerecer natural!

Entrelaçam-se incógnitas de teu lânguido olhar,
Estrangulando o frágil eixo de teus nagalhos,
Das pesadas paralelas que sobre ti juram amar,
Medindo distâncias no gráfico de teus atalhos,
Encontros calculados em pontos de teus retalhos,
Fragmentos levantados em lágrimas de teu chorar,
Imagem que se desvanece no perdão de teu pesar,
Exactos cálculos de tristeza traçada em enxovalhos,
Cálculos enganosos que por ti prometeram jurar,
Quadrantes escorridos de teus baços orvalhos!

Tapete voador por teu corpo alado,
Asas de teus gémeos corações que por ti voam,
Anátemas descoloridos que teu sofrimento entoam,
Perseguindo o futuro que passou de teu esquecido passado,
Na geometria perfeita de um invisível círculo fechado,
Calculada perfeição que sentimentos magoam!

Estendido teu corpo abandonado,
Tapete gasto por incógnitas que nele se limparam,
É uma equação repetida e gasta pelo coeficiente ignorado
!
*
***
*

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Sweet Sixteen (aniversário)



Tudo começa pela entrega que se oferece,
Dando à certeza um Amor que acontece,
Acontecendo Krystal escolhida pelo Destino Disperso,
Paixão de Amor Respeitado na lucidez de um Universo,
Onde continua germinando o Amor que no Amor floresce,
Pais-Poema feito de Filhos, o mais Amado Verso!

*
Aconchego na memória,
Aquela superior glória,
Dos doces dezasseis anos,
O triunfo da sabedoria simplória,
A certeza do que não pensamos,
Pensando que não nos enganamos,
Apostando no reescrever da História!

*
Repete-se a mesma paixão que não passa,
Na certeza da escolha confirmada pelo desejo,
Partida que do tempo é um ofuscante lampejo,
Brilho de Paixão nossa que nossos versos abraça,
Abraçando Amados Poemas que o sangue traça,
Desenhando anos gravados no prolongado ensejo!
*
Agora são dezasseis deuses donos de toda a vontade,
Por cada ano passado um deus maior se agigantou,
Tomando como sua a consciência da qual se apossou,
Revelou-lhe pecados com autoritária legitimidade,
Assinando na palma da mão berços de fertilidade,
Primeiros passos de filhos que nosso tempo consagrou!
*
São génios perdidos no labirinto transitório,
Procurando saídas na entrada de puzzles incompletos,
Moldando-se na peça que falta em esforço inglório!
*
Na vanguarda de suas confusas opções,
Alimento a incapacidade de decisão,
Perco a sensibilidade, pouco vejo,
E tudo por ele passa sem que se aperceba!

domingo, 11 de outubro de 2009

Pretéritos Mais-Que-(Im)Perfeitos

*
Comemoram-se certezas dos pretéritos imperfeitos,
Na perfeição cega dos pretéritos que não enganavam,
Compondo formas do prolongamento que atravessa,
Amanhecidas amnésias de pretéritos defeitos,
Imperfeitos epitáfios que sortes findas dominavam,
Louvores próprios que o próprio pretérito expressa,
Louvando suas promessas vendidas na promessa,
Promessas prometidas no leito de alheios leitos,
Tão alheios que deles outros pretéritos esbulhavam,
Particípios passados por pretéritos crentes que vagavam,
Abrindo álveos acolhedores de caminhos insuspeitos,
Chorrilhos sem fim dos prometidos passados perfeitos,
Verbos de papel que na límpida água se afogavam!

Pretéritos mais-que-perfeitos arrependidos,
Sempre dependentes dos Amores que conquistara,
Contara pretéritas estórias inventadas a fiéis inimigos,
Atrasados no encontro da partida de quem regressara,
Quando voltou a partir com o regresso que voltara,
Na passada gravura, essa marca futura de perigo,
Imperfeitos tempos consagrados em infiéis amigos,
Amores de imperfeitas certezas que o tempo alcançara!

Guarda-se na memória o Futuro do Pretérito que chora,
Sabendo que se soubesse, saber seu futuro não saberia,
Sabe de sua tristeza que nem por ódio nem Amor trocaria,
Preferindo efémeras paixões desvanecidas na aurora,

Desencontro de tempo que o verbo escolheria sem demora,
Se outros tempos permitissem visão do tempo que viria!

Voltou o Pretérito Perfeito que sua sorte porfiou,
Lutou cegamente cegando seus olhos que o cegou,
Obstinação dedicada ao que por seu Amor sentia,
Recorda os crepúsculos onde sua paixão dormia,
Desperta madrugada que por ele se apaixonou,
Fresca alva que ao tempo do verbo se oferecia,
Em frescos ímpetos da emoção que florescia,
Cama florida onde platónico passado se deitou,
Alimentando vazios nadas do nada que fenecia,
Renascendo do nada o pouco mais de nada que restou,
Perfeitos e imperfeitos nadas que a razão desprezou,
Cultivado pretérito que aos pretéritos se oferecia!

O que passou, passou, em todo seu pretérito indubitável,
Não é a morte do tempo que pelo tempo impávido passa,
É o grassar que se transfunde em cicatriz inevitável!

*

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

sábado, 26 de setembro de 2009

Mosto de Teu Rosto

No
Mosto

De
Teu
Rosto
Saboreiam doçuras de teu sabor,
Prazer doce sem Amor,

Renascer De teu Sol-Posto,
No horizonte de tua Dor!

Lagar onde teu Mosto fermenta,
Teu emerso corpo do generoso vinho,

É néctar frutado tratado com carinho,
Nas mãos que tua vontade experimenta,
Provando da tentadora tentação que tenta,
Embriagada vontade de petulante anjinho!

Edulcorados lagares de prazer,
Por fermentoso desejo de uva divina,
Brancura doce de poderosa sacarina,
Preparando seu corpo para cada sorver,
Sorvendo quem sorve um servido refazer,
Embriagando o tino de quem desatina,
Nas mágoas esmagadas deixadas escorrer,
Fracasso jurado de quem jurou proteger!

Sobre teu irresistível lagar,
Pairam agora colibris e abelhas de mel,

Escanções delicados dando a provar,
Milagrosa transformação de valioso fel,

Tinta amarga de assinado papel,
Implorante rosto de triste olhar,
Lágrimas prensadas sem vacilar!

No Horizonte de tua dor,
Renascendo de teu Sol-Posto,

Prazer doce sem Amor,
Saboreiam doçuras de teu sabor,

No
Mosto

De
Teu
Rosto!

domingo, 20 de setembro de 2009

Diferentes Vindimas Iguais


Trovões suaves se formavam na mente,
Pela estranheza de quem não os esperava,
Riam desconfiados de quem desconfiava,
Perdendo o olhar que bailava facilmente,
Olhar encontrado que pousava mansamente,
No sorriso da graça que o sorriso provocava!

Ilhas atrevidas de mentes solitárias,
Rodeadas por mil cuidados de garantida liberdade,,
Voaram sobre a vontade das atenções desnecessárias,
Tocando suavemente os vinhedos de lendas várias,
Gravados em cada videira o anonimato da identidade,
Em anónimas diferenças de igual particularidade,
Contrariando o juízo de iguais suposições contrárias,
Supondo agrestes encostas em Douro de tempestade,
Suposta surpresa confirmada na sensível possibilidade,
Da pobreza insensível de afectações sumárias!

Tesouras de luz cortando a iluminada diferença,
Na luz da luz que ilumina o resplandecente caminho,
Não deixando passar em claro solitário cacho de uvas sozinho,
Compreensão indiferente de quem aguarda a contínua sentença,
Na absolvição de um parto sem pecado absolvido à nascença,
Invisíveis parras cobrindo o perfeito rosto mesquinho!

Ilusores passos descontrolados em ameaça de queda eminente,
Ilocáveis Almas preenchendo lacunas entre bardos de videiras,
Entrelinhas misteriosas onde outras uvas curam cegueiras,
Silêncios surdos de gritos mudos no olhar de quem sente,
A condigna superior igualdade de igual mérito diferente,
Condutíveis pessoas em ordenadas fileiras,
Aguardando sua vez sem invejosas rasteiras,
Admirável humildade sorridente!

Doces uvas de doce vindima,
Colheita doce de doce estima,
Amigos diferentes em seu trajecto solitário,
São prova de igualdade e seu contrário,
Lição de vida que a videira da vida anima,
Cachos dourados pelo quente Sol que ilumina,
Bagos devotos nas contas de um rosário,
Corações rebeldes em vinhateiro sacrário,
Qualidade vindimável que pelo coração prima!

Triláteros de tempo cada um em seu compasso,
Três dias diferentes cada um com sua face,
Forças renovadas na gradação do cansaço,
Mais um dia do primeiro que renasce,
A mesma Luz do mesmo mágico passe,
Reintegração possível em tempo tão escasso!

Vindima da memória que não foi vindimada,
Ainda que colhida por pessoas tão Admiráveis,
Será sempre vindima de consciências amáveis,
Em cada cepa de videira gravada!


Sendo tão iguais na virtude quanto no defeito,
Fez-se uma vindima diferente cortando tudo a eito!

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Barquito Rabelo


Derivando na deriva da vaidade dos verdes bardos,
Flutuava um pequeno e mágico Barquito Rabelo,
Acariciando parras que protegiam o cacho perfeito,
Estimulando movimento na leve brisa de um apelo,
Retribuindo com brisa maior de um acordo satisfeito,
Impelindo assim o Barquito nos socalcos de um leito,
Emergido da montanha num monte que jurou protegê-lo,
Resistiu ás intempéries que fustigavam o desejo de vê-lo,
Transportar pequenos cascos de mágico vinho insuspeito!

Derivando na deriva de admiráveis castas orgulhosas,
Sobre nobres castas de qualidades frondosas,
Navega feliz o rebelde Rabelito de si seu dono,
Com a coragem de quem nada teme,
Não dormindo no desleixo de folgado sono,
Enche de vento a vela de suas descendências aventurosas,
Rabelo lírico decidido em ser seu próprio dono do leme,
Transporta paixão por suas uvas o barquito que freme,
Ancorando à tardinha na visão de curvas sinuosas,
Por onde deslizam gigantescas velas misteriosas,
Anunciando pagamento sedutor de amargo abono,
Ameaçando levar o fruto de paixões deliciosas,
Paixões de outras paixões deixadas ao abandono!

Derivando na deriva da paixão de Portuguesa Touriga,
Entre o corte à tesourada de suas paixões separadas,
E frios lagares onde suas protegidas serão esmagadas,
Encalha o Barquito Rabelo apartado que a tristeza abriga,
Sem saber que é fado mágico de paixão antiga,
Arrebatamento de paixões por paixões apaixonadas,
Paixão de Deuses para irresistíveis paixões fadadas,
A mesma paixão pelo pequeno Rabelo incompreendida!

Caiu-se de si o Barquito Rabelo sobre pedras de xisto,
Deixou-se derivar na deriva das espadelas sem vontade,
Murchou sua vela num enrodilhado imprevisto,
Abandonando-se num olhar profundo nunca visto,
Deixou que a prata do Douro reflectisse a profundidade,
De um fim de tarde em resignada passividade,
Descurado chão inseguro de elevado risco,
Seca corrente forte no Douro da maturidade!

Acordou com a luz de prata em seu peito de fundo chato,
Sensação de estranha sede da sede que nunca tivera,
Mas que saboreou num admirável sorver imediato,
Confundindo lágrimas escorridas em pequeno regato,
Com acolhedoras boas-vindas que o Douro lhe dera,
Rio de seu leito pelo Rabelito rebelde à espera,
Praxe generosa no generoso vinho de mais uma Era!

Derivando agora na deriva do Rio que entre colinas ri,
Navega nervoso o pequeno Rabelo atarantado,
Descobrindo a corrente na qual navega enviesado,
Esquecendo-se da espadela em remo do leme de si,
Mas sua quadrada vela se arredonda e sorri,
Bem segura pelo mastro em suor da vinha trabalhado!

Lá se ajeitou o barquito,
Seguindo a corrente dos grandes Barcos imponentes,
Transporta agora a melhor uva, um único baguito,
Acenam-lhe alegrias lá nos montes as videiras contentes,
Recordando aquele Rabelo pequenito,
Que flutuava num imaginário infinito,
Imaginação sem fim de grainhas-sementes,
Gerando histórias que germinam no calo dos crentes!

O Barquito Rabelo derivando agora no mosto da deriva,
Navega nos lagares de onde saem grandes prazeres da vida!




segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Defeito da Virtude


Este calor que abafa o discernimento,
É anaeróbio defeito de Agosto,
Entre asfixiante virtude entreposto,

Fugindo ao ensinamento,
Do inalcançável entendimento,
Arquitectado na estrutura do perfeito rosto,

De um intencional arrefecimento!

A virtude é um cubo em arestas de gelo,
Ausente das paredes que o sustentam,

Com ângulos de perspectivas sem apelo,
É ângulo flexível de quebrado cotovelo,

Dor insuportável que soporíferos aguentam,
Fazendo de conta nas contas que inventam,
pertinaz empenho cego de obscuro zelo!

Pobres poetas e outros miseráveis,
Caminham em abraços no prazer da conivência,

Comungam de pão divino que se bifurca,
Afogam-se em sangue de vinhos lastimáveis,
Afagando rostos imaginados de irresistível aparência,
Acordos tácitos de egoísta convergência,

Subtileza manhosa que o incauto deturpa,
Deturpando virtude de defeitos louváveis,
Com o efeito do defeito em virtudes reprováveis,
Que a violência do verbo usurpa,
Visando o fim que o princípio conspurca,

O mesmo princípio de repetida persistência,
Repetindo anáforas de final contingência!

Mas este foi o Mês de Agosto,
O Mês de poucas virtudes... e muitos defeitos,

A denúncia de surpresos conceitos,
A confissão atroz de desconhecido rosto,

Tristeza feliz de alegre desgosto,
O fim inacabado dos Krystais perfeitos!

Agosto, será sempre o Mês de Krystal,
Será DiVerso sem preconceitos,
Será o defeito da virtude natural!...

Apenas o defeito revelado de Agosto,
Na virtude de um Poema... sem rosto?!...

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Antes Prevenido...



Do Filme*"The Boat That Rock"*Richard Curtis (2009)

domingo, 23 de agosto de 2009

O Hipócrita


Tudo na Vida,
Tem uma medida,
Pode ser grande, estreita ou até sem saída,
Pode ser ínfima Hipocrisia de Hipocrisia incompreendida!...
Tudo na Vida tem um peso,
Carga leve sobre teu insuportável poder indefeso,
Derrota esmagadora da qual sais ileso!...

A vida é uma razão fodida,
O fingimento ao qual te sentes preso!

Anjo sombrio, esse estupor,
Tinha uma admirável balança,
Não como a da Justiça em sua justa herança,

Num prato punha o Amor,
No outro a falsa esperança!...

Cravos entre coágulos oxidados,
Crescem no sofrimento do estigma,

Para o espírito pobre será sempre um enigma,
Para os hipócritas ricamente compensados,
Serão martelos cravando o paradigma,

Nos valores humanos crucificados,
Tão fartos de amargos cravos glorificados,

Sustentados por falsa cruz fidedigna!

Quem quer sentir uma chaga de Cristo crucificado?...

Bem no âmago do Amor desperdiçado,
Não desse Amor que arde no oportunismo viciado,

Daqueles que semeiam a ilusão,
Entre o raciocínio animal sem razão,

E o sexo premeditado,
Na promessa conjurada de triste condição!

Quem quer um Estigma de Cristo?...
Eu sou vossa sexta Chaga na qual resisto,
Restam as cinco da Crucificação:
Tórax, Punhos e Pés do Justo condenado,
Julgado pela Hipocrisia do Hipócrita revelado,
Na certeza de adivinhada confirmação!...
Ainda querem uma cruel Chaga do inocente castigado?!...
Ergam os olhos bem para dentro de vossa consciência,
E tenham a humildade de aceitar sua beneplácita clemência!

Anjo sombrio, esse estupor,
Tinha uma admirável balança,
Não como a da Justiça em sua justa herança,
Num prato punha o Amor,
No outro a falsa esperança!...
*
És esperança de teu próprio fruto imortal,
Esperança perdida de tua inacabada árvore genética,
Flor de laranjeira em virgem declaração Poética,

Coroa de pureza elaborada em teu ritual,
Vida coagulada escorrendo do Santo Graal,

Copiando formas de querer estético,
Ilusória imagem de teu sangue virginal!
*
Hipócrita, esse grande estupor,
Grava hipócritas métricas de desmedido sal,

Em lágrimas salgadas de fingido Amor!
*

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Quem-me-Deras


Encontrei uma Quem-me-Dera debaixo da Esperança,
Quem me dera o que dela por mim se perdeu,
E quem por ela se perderia fora eu;
Sou Quem-me-Dera da Quem-me-Dera que não alcança,

Dera por ela em Quem-me-Deras de despeitada vingança,
Por Quem-me-Deras que nas Quem-me-Deras se desvaneceu!

Foram semeadas Quem-me-Deras entristecidas,
Em jardins de Quem-me-Deras sem cor,
Falam em Quem-me-Deras de amor,
Quem-me-Deras por todos apetecidas,
Arranjos desflorados de Quem-me-Deras Floridas,

Floristas tristes em Quem-me-Deras de dor!

Pudera eu dar alento a quem-me-dera,
Não me dando a quem eu não quisera,

Querer de mim quem de ti soubera,
Quem de ti, por mim, sempre soubera amar,
Soubera eu partes que de mim dar,
Dando múltiplos do que não me deste,
Quem-me-Deras de tua indiferença agreste,

Asfixia transbordante de comprimido ar,
Oxigénio vivo que de alguém fizeste,
Respirando Quem-me-Deras do que disseste,
Quem-me-Deras confessadas de teu pensar!

Quem-me-Deras,
São como quimeras,
Quimeras de Quem-me-Deras,
Primitiva cobiça prenhe de ilusões,
Gestação traída por prometidas esperas,
Quem-me-Deras de traídas traições!


Esquecem as Quem-me-Deras de regar o Amor,
Com Amor de Quem-me-Deras arrependidas,

Quem-me-Deras cobiçadas por qualquer estupor,
Sem Quem-me-Deras no jardim de suas vidas!


Ainda que sejas quem Quem-me-Deras não tem,
Terás uma Quem-me-Dera cobiçada por alguém!...


*

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

O Elo dos Oráculos

Esvoaçavam esbeltas as mariposas em sua beleza,
Descansando transparentes asas que o vento embalava,
Adormecendo-as na anestesia serena do sossego,
Quando em chumbo transformadas pesaram a tristeza,
Caindo em si num voo picado que o chumbo denunciava,
Desfragmentando mil coragens num único medo,
Dando asas a negras asas de negro degredo,
Penumbrando a luz do eclipse que iluminava,
O jardim celeste agora de certeza apagada,
Onde quatro folhas caíram de um obscuro trevo,
Sobre palavras desmaiadas no sortilégio de um enredo!
*Adivinham-se mosquitos por cordas,
Comem-se gatos pardos por cio de lebres extintas,
Lêem-te mentiras para que por ti não mintas,
Reiteras a disciplina errante de engajadas hordas,
És o número redondo que em ti, de ti não recordas,
Cilha da albarda elaborada de tua premiada precinta!
*
Regressaram oráculos menores,
Ratos pelados em película aderente,
Não desses ratos de igual peçonha diferente,
Ratos e ratazanas de inspirações maiores,
Senhores das predições e outros folclores,
Rédea solta sem freio inteligente!
*
Quebram-se elos seguros de mau olhado,
Os mesmos elos onde os sonhos preguiçavam,
Reforçando a preguiça de um sono reforçado,
Sonolento despertar para olhar desconfiado,
Por olhos desviados dos olhos que amavam,
Amores fugidios que a eles se entregavam,
Falsa paixão ilusória de um engano envergonhado,
Escolhida no acaso das coincidências que aguardavam!
*
Sentados em dunas de nostalgia,
Entre mãos cúmplices que não se tocam,
Observam quarto minguante que na lágrima flutua,
Olhar silencioso de melancólica eupatia,
Descrentes na noite sem a luz mágica da lua,
Cores perdidas no arco-íris da utopia!
*
Regressaram mais santificados oráculos,
Predizendo fúnebres traições do passado,
Multiplicam-se ventosas de viscosos tentáculos,
Na clareza óbvia do óbvio gizado,
Letras engenhosas de fino traçado,
Palavras melodiosas de admiráveis cavernáculos!
*
Solda-se a frio o elo quebrado,
No chumbo que abateu a extinta lebre,
O mesmo chumbo derretido noutros obstáculos!
*
Afinal comandam os mosquitos,
Confundidas cordas de articulados homenzitos!