sexta-feira, 8 de maio de 2009

Espelho


Estranho este estranho despertar sem norte,
Sul invertido de uma estranha projecção forte,
Enigma do olhar fitado na cópia do avesso,

Fitando quem a hipnose fita em visão torpe,
Confusa visão em convexa cicatriz de corte,
Rasgado mundo de esvaído sangue espesso,
Tua expiação de meu leve sorriso que entristeço,
Vida contrária reflectida no contrário da morte,

Reflexo ausente da imagem ausente de sorte,
Cópia clara da perfeita luz que escureço!

Tocamos nossas mãos que não se tocam,
Aproximam-se meus etéreos lábios dos lábios teus,
Beijo volátil em anestesiados lábios meus,

Amor proibido que teus olhos evocam,
Íris que meus medos teus medos focam,
Transparente reflexo sem alma e sem Deus!

Concha lisa onde abraço o eixo de luz fulgente,
Deslizo Danças sedutoras de brilho cintilante,
Sigo teus passos de meu passo teu amante,
Dimensão fugidia de tão igual miragem diferente,
Fugindo de mim ao teu encontro incessante,
Côncavo de teu efémero abandono indulgente,
Convexo de teu corpo despojado de meu sangue quente,

Repouso em ti que em mim repousas expectante,
Equilíbrio sobre esfera em descontrolo iminente,
Espanto duvidoso de uma certeza hesitante!

Krystal de luz em trajectória angular,
Investida suave no reflector DiVerso que diverge,
Desvanecendo a hipnose de fixação crepuscular,

Raio de Sol sem reflexo que do Amor emerge,
Infinitas partículas de espelho em interdito mirar,
Desvanecido narciso no crespúsculo aquático submerge,

Feitiço meu que só eu, tu podias quebrar!

Somos agora dois reflexos frios do sangue que temos,

Estátuas frias de vidro que do outro lado vemos,
Frio Amor cúmplice de igual pensamento,
Bizarra imagem doente pela qual morremos,
Vislumbre culpado de espelhado momento!

Estavas tu tão perto, atrás de mim do outro lado,
Espelho de mim em reflexo desperdiçado!

7 comentários:

AnaMar (pseudónimo) disse...

Os momentos desperdiçados, podem sempre ser agarrados, desde que o orgulhe não estilhace os espelhos.
Belo poema!
Fascinante, tocante, inebriante.

poetaeusou . . . disse...

*
o teu poema,
espelha-se em mim, hoje . . .
,
um abraço
,
*

pin gente disse...

olho-me no reflexo das águas e vejo o teu rosto.
olhos nos olhos da profundeza do rio que agora corre para o mar.
o teu rosto fica. flutua na corrente mansa, sobre um azul esverdeado. permanece a olhar-me nos olhos. estendo a mão e toco-te. dedos nos dedos. deles sai a verdade das palavras nunca ditas. olhos nos olhos.
observo-me no reflexo das águas esverdeadas deste rio e encontro-me no teu rosto. sinto os teus dedos nos meus. vejo os teus cabelos ondularem ao vento.
oiço a tua voz no murmúrio dos peixes. e tenho-te nos meus braços, no abraço das margens.
corpo no corpo.


um beijo, krystal

Carla disse...

enfeitiçadas palavras que nos absorvem plenamente
beijos

Fragmentos Intemporais disse...

O espelho que tudo despe...
A alma
Afectos
Identidades

O mais puro que existe em nós!

Vim entregar-lhe um sorriso, um afecto, um pedaço de mim... é seu!

Clotilde S. disse...

Belo o jogo de espelhos, de palavras e de azuis.

Um abraço

VÓNY FERREIRA disse...

Tenho-o recebido no meu espaço com todo o prazer, Eis porque começo primeiramente por lhe pedir desculpas por não ter retribuído nunca a sua visita.
Tenho andado embrenhada no mundo da escrita (desta vez com um novo romance)
Seja como for, prometo, virei conhecer melhor o que lhe vai na alma mais assiduamente.
Pelo que li, neste seu poema, rendo-me à forma como descreve o que lhe vai na alma.
Um abraço,
Vóny Ferreira